Private Equity para famílias empresárias foi um dos temas abordados por Rafael Bassani, sócio-diretor da Spectra Investments, no Family Office Summit Belo Horizonte 2026. Durante a palestra, ele destacou a importância da diversificação, da especialização e da visão de longo prazo na construção dos portfólios.
Muitas das grandes famílias empresárias brasileiras construíram seu patrimônio concentrando capital em empresas durante décadas. Criaram negócios, reinvestiram seus resultados e atravessaram diferentes ciclos econômicos até transformá-los em importantes geradores de riqueza. Essa trajetória ajuda a explicar o interesse crescente pelo Private Equity para famílias empresárias.
Quando parte desse patrimônio passa para o portfólio financeiro da família, porém, a lógica frequentemente muda: a concentração em empresas dá lugar a uma presença significativa de renda fixa e títulos de crédito.
Foi a partir desse contraste que Rafael Bassani, sócio-diretor da Spectra Investments, conduziu sua palestra no Family Office Summit Belo Horizonte 2026, realizado pelo Fórum Brasileiro da Família Empresária (FBFE). A discussão colocou em perspectiva o papel dos investimentos alternativos na diversificação do patrimônio das famílias empresárias.
“Como conseguimos ganhar dinheiro investindo no que os empresários investiram ao longo de todas as gerações e geraram suas riquezas?”, provocou. Para Bassani, parte da resposta está nos investimentos alternativos e, particularmente, no acesso diversificado a empresas privadas.
Há cerca de 15 anos, quando a Spectra iniciou sua atuação, Private Equity, Venture Capital e outras estratégias de investimentos alternativos no Brasil estavam concentrados principalmente entre grandes fundos de pensão e investidores internacionais. A presença das famílias brasileiras ainda era pequena.
Uma das propostas da gestora, segundo Bassani, foi justamente aproximar investidores privados brasileiros dessa classe de ativos e permitir que participassem do crescimento de empresas fora da Bolsa. Desde então, o próprio mercado se transformou.
O volume de capital disponível para investimentos privados aumentou e surgiram gestores cada vez mais especializados em determinadas estratégias e setores. Em vez de apenas grandes casas generalistas, o mercado passou a contar com equipes dedicadas a áreas específicas, como tecnologia, mineração, biotecnologia, Search Funds e situações especiais.
Para Bassani, essa especialização é positiva. A lógica é simples: determinados investimentos exigem conhecimentos que dificilmente podem ser replicados por um gestor generalista. Em algumas teses, compreender profundamente um setor, seus empresários e sua dinâmica pode ser determinante para selecionar boas oportunidades.
O crescimento dos investimentos alternativos, no entanto, trouxe um novo desafio. À medida que determinadas estratégias começam a apresentar bons resultados, mais investidores direcionam recursos para elas. A entrada excessiva de capital aumenta a competição pelos mesmos ativos e pode elevar os preços a níveis que comprometem os retornos futuros. Bassani citou Venture Capital como exemplo.
A Spectra começou a investir nessa estratégia quando empresas com forte crescimento ainda podiam ser adquiridas por múltiplos relativamente baixos. Alguns anos depois, com o aumento expressivo do capital direcionado ao setor, as mesmas empresas passaram a receber avaliações muito superiores.
O que inicialmente representava uma oportunidade passou a exigir cautela. “Quando está todo mundo querendo investir em alguma coisa”, explicou Bassani, é justamente o momento em que o investidor precisa analisar com maior cuidado os preços e os riscos envolvidos. A resposta da Spectra foi reduzir gradualmente sua exposição à medida que as avaliações subiam e distribuir capital entre outras estratégias.
Esse é um dos pontos centrais da estratégia apresentada por Bassani. Ao avaliar o Private Equity para famílias empresárias, não basta decidir investir em ativos alternativos. É necessário diversificar também dentro dessa própria classe de investimentos.
Venture Capital, Search Funds, empresas de tecnologia, situações especiais, biotecnologia e outras estratégias respondem de maneiras diferentes aos ciclos econômicos. “Eu vou colocar 100% do meu capital nisso? De jeito nenhum. A gente vai espalhar”, afirmou.
Segundo Bassani, existem períodos em que determinadas estratégias produzem retornos extraordinários e outros em que enfrentam dificuldades. A diversificação permite participar de diferentes movimentos da economia sem depender do desempenho de uma única tese.
A palestra também apresentou uma diferença importante entre o desenvolvimento do Private Equity nos Estados Unidos e no Brasil. No mercado norte-americano, parte relevante dos retornos das últimas décadas esteve associada à expansão dos múltiplos pagos pelas empresas e ao uso de alavancagem financeira.
No Brasil, segundo os dados apresentados por Bassani, a dinâmica foi diferente. Com crédito mais caro e escasso e múltiplos de entrada e saída relativamente estáveis, grande parte do retorno dos investimentos privados brasileiros veio do próprio crescimento das empresas.
“Estamos investindo e nos aproveitando do crescimento. É a economia real, de fato, o que tem acontecido no dia a dia”, afirmou. Para Bassani, essa característica aproxima os investimentos privados da economia brasileira real: empresas de médio porte, negócios regionais e companhias que crescem acompanhando mudanças demográficas, de consumo e de renda.
Outro princípio apresentado durante a palestra foi a relação entre disponibilidade de capital e retorno. Quando uma determinada tese se torna popular e recebe volumes elevados de recursos, os preços tendem a subir e os retornos potenciais podem diminuir. Nos períodos de maior incerteza ocorre o movimento inverso.
“Para a indústria de investimentos privados, escassez é abundância de retorno”, resumiu Bassani. A lógica está em aproveitar momentos nos quais outros investidores estão mais receosos para acessar ativos em condições mais favoráveis e capturar sua valorização ao longo de ciclos posteriores. Em uma frase ainda mais direta, Bassani sintetizou a estratégia: “Foge quando está todo mundo indo, entra quando está todo mundo fugindo.”
Em Private Equity, no entanto, escolher a estratégia correta não é suficiente. Grande parte dos investimentos é realizada por meio de gestores com os quais o investidor manterá uma relação por muitos anos. Como os fundos têm baixa liquidez, uma escolha equivocada pode ser difícil de corrigir.
Por isso, a Spectra incorporou também uma avaliação das pessoas responsáveis pelas gestoras e pelas empresas investidas. Bassani contou que a empresa possui há mais de uma década uma psicóloga especializada em empresários e lideranças participando das diligências. O trabalho inclui avaliar equipes de gestores e CEOs das empresas nas quais a Spectra considera investir.
“O erro aqui custa muito caro”, afirmou. Para ele, histórico, conhecimento técnico e estratégia continuam fundamentais, mas a capacidade das pessoas de trabalhar juntas e construir relações ao longo do tempo também pode determinar o sucesso de um investimento.
Ao longo da apresentação, Bassani voltou diversas vezes a uma mesma ideia: investimentos em empresas privadas precisam ser analisados dentro de horizontes longos. Não se trata de escolher a tese mais comentada daquele momento ou tentar antecipar o próximo movimento do mercado.
Para famílias empresárias, a lógica pode ser especialmente familiar. Afinal, muitas delas construíram sua própria riqueza exatamente dessa maneira: investindo em empresas, atravessando ciclos econômicos e permitindo que bons negócios crescessem ao longo de décadas. Ao considerar o Private Equity para famílias empresárias como parte do patrimônio financeiro, o desafio passa a ser fazer isso de maneira diversificada, com gestores especializados e disciplina na alocação.
Mais do que encontrar a próxima grande oportunidade, a estratégia está em construir um portfólio capaz de capturar diferentes oportunidades ao longo do tempo.
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