Economia e política no Brasil atravessam diretamente as decisões de longo prazo das famílias empresárias. A partir dessa relação entre atividade econômica, ambiente institucional e cenário internacional, Christian Lohbauer analisou os desafios de planejar em um país marcado por ciclos e mudanças frequentes.
Essa foi uma das provocações centrais de Christian Lohbauer durante o Family Office Summit Goiânia 2026, promovido pelo Fórum Brasileiro da Família Empresária (FBFE).
Cientista político e presença recorrente nos encontros do FBFE, Lohbauer iniciou sua análise olhando para fora do Brasil. Para ele, compreender o ambiente internacional deixou de ser uma preocupação restrita às grandes multinacionais. Empresas familiares, produtores, investidores e family offices também precisam acompanhar as transformações geopolíticas, porque seus efeitos chegam cada vez mais rapidamente aos negócios, às cadeias produtivas e aos investimentos.
Nesse cenário, Estados Unidos e China ocupam o centro de uma reorganização da economia e das relações internacionais.
Lohbauer chamou atenção para uma mudança na ordem global construída nas últimas décadas. Em sua análise, a ideia de um mundo cada vez mais integrado, com maior liberalização comercial e fortalecimento das organizações internacionais, vem dando espaço a uma disputa mais clara por influência, interesses estratégicos e capacidade de produção.
Ao mesmo tempo, a China ampliou de forma significativa sua presença econômica ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Essa relação já não passa apenas pelas exportações brasileiras. Ela envolve importações, infraestrutura, investimentos e participação crescente de empresas chinesas em diferentes setores.
Apesar desse avanço, Lohbauer considera prematuro falar em decadência dos Estados Unidos. Segundo ele, a força econômica, tecnológica e inovadora norte-americana ainda deverá exercer influência relevante nas próximas décadas.
Durante o debate que encerrou sua participação, porém, surgiu uma questão importante: até que ponto a ascensão asiática pode alterar esse equilíbrio no longo prazo?
Lohbauer reconheceu que a Ásia vive uma transformação estrutural e que a China já ocupa espaços antes dominados pelo Ocidente, inclusive em áreas de tecnologia e biotecnologia. Para ele, uma das grandes questões das próximas décadas será entender como esse crescimento econômico conviverá com o modelo político chinês e com as tensões que podem surgir de uma sociedade cada vez mais rica e complexa.
Para as famílias empresárias brasileiras, esse movimento global está longe de ser abstrato. Ele influencia mercados, investimentos, comércio exterior e decisões sobre onde alocar patrimônio.
Ao voltar o olhar para o Brasil, entretanto, Lohbauer apresentou um contraste ainda mais próximo da realidade dos empresários presentes.
De um lado, existe um país extremamente dinâmico, com produtores, empresas e empreendedores criando negócios e transformando setores. De outro, existe um ambiente político e institucional que, em sua avaliação, dificulta a construção de previsibilidade.
“Um dia você acorda e pensa: ninguém segura esse país. No outro, parece que não tem nenhuma chance de dar certo”, resumiu ao descrever a alternância entre euforia e pessimismo que frequentemente acompanha o noticiário brasileiro.
Para Lohbauer, essa oscilação tem consequências práticas.
Famílias empresárias precisam planejar sucessões. Empresas precisam decidir onde investir. Acionistas precisam pensar na alocação de capital. Family offices trabalham com horizontes que atravessam décadas. Tudo isso exige algum grau de estabilidade e capacidade de projetar cenários.
Quando o ambiente muda constantemente, decisões de longo prazo tornam-se mais complexas.
A política estava inevitavelmente no centro dessa discussão. Lohbauer analisou a renovação ocorrida no Congresso e no Senado e chamou atenção para mudanças na composição das forças políticas. Também discutiu o fortalecimento de grupos mais conservadores, a redução do espaço de alguns partidos tradicionais e a importância da cláusula de barreira na diminuição da fragmentação partidária.
Ao mesmo tempo, fez críticas ao funcionamento do sistema político brasileiro e à dificuldade de identificar projetos de longo prazo em parte das legendas de centro.
Para o cientista político, esse ambiente ajuda a explicar por que empresários e famílias encontram tanta dificuldade para planejar.
Sua análise também passou pelas tensões entre os Poderes e pelo papel das instituições. Lohbauer apresentou uma visão crítica sobre diferentes aspectos do atual ambiente institucional brasileiro e defendeu o fortalecimento dos mecanismos previstos pela própria democracia para equilibrar as relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
Independentemente das posições políticas de cada participante, a questão levantada no palco era diretamente relacionada ao universo empresarial: como construir planejamento de longo prazo quando parte relevante das regras, das políticas públicas e das expectativas econômicas pode mudar a cada ciclo?
Ainda assim, a força da economia real brasileira foi um dos pontos em que Lohbauer mais insistiu.
Ele usou o agronegócio como exemplo de um Brasil que continua produzindo, inovando e descobrindo novas oportunidades. Além das grandes cadeias já conhecidas, como soja, milho, açúcar, café e proteínas animais, citou produtos que ganharam espaço e demonstram a capacidade de adaptação do setor.
Entre eles está o gergelim, cultura cuja produção vem avançando e que tem presença importante em Goiás.
O exemplo reforçou uma ideia recorrente durante sua apresentação: muitas vezes, o Brasil que funciona está distante dos grandes centros e do debate político cotidiano.
Lohbauer contou ainda a experiência de uma cidade do Espírito Santo cuja economia se desenvolveu ao redor da produção agrícola e de alimentos. O caso serviu para mostrar regiões que crescem, geram empregos, atraem trabalhadores e produzem riqueza enquanto o debate nacional permanece concentrado nas crises políticas.
Esse contraste ajuda a explicar um dos grandes paradoxos apresentados por ele.
O país possui recursos naturais, empresários, capacidade produtiva, tecnologia e oportunidades. Entretanto, ainda encontra dificuldades para transformar todas essas vantagens em um processo mais consistente de desenvolvimento.
Para Lohbauer, o problema central brasileiro não está na ausência de potencial econômico. Ao contrário, ele defende que a economia demonstra repetidamente sua capacidade de transformação.
A dificuldade estaria em criar condições políticas e institucionais que acompanhem essa capacidade produtiva.
Sua reflexão passa também pelo que o Brasil deixou de construir.
O cientista político lembrou que, no início deste século, o país viveu uma combinação favorável de valorização das commodities, crescimento econômico e novas fontes de riqueza. Em sua avaliação, parte importante daquela oportunidade poderia ter sido direcionada com maior intensidade para infraestrutura e educação básica.
Esse é um ponto especialmente relevante para famílias empresárias porque decisões patrimoniais também são decisões sobre tempo.
Uma família pode avaliar um investimento por dez, 20 ou 30 anos. Pode decidir manter uma propriedade rural, desenvolver um empreendimento imobiliário, internacionalizar parte do patrimônio ou investir em novas empresas.
Para isso, precisa enxergar não apenas o retorno imediato, mas o ambiente em que aquele patrimônio estará inserido no futuro. Por essa razão, o cenário internacional voltou à discussão.
Se Estados Unidos e China consolidarem dois grandes polos econômicos e estratégicos, o Brasil terá de encontrar sua própria posição. Lohbauer defendeu que o país possui dimensão econômica e recursos suficientes para manter relações relevantes com ambos, sem necessariamente se limitar a uma escolha entre um lado ou outro.
Essa capacidade de equilíbrio pode ser especialmente importante para setores fortemente conectados ao comércio internacional, como agronegócio, mineração, indústria e energia. Também pode afetar diretamente as estratégias de diversificação das famílias.
Nos últimos anos, a internacionalização patrimonial deixou de ser uma discussão distante para muitos family offices. Ativos fora do Brasil, exposição a outras moedas e investimentos em diferentes geografias passaram a fazer parte das decisões de um número crescente de famílias.
Nesse contexto, acompanhar geopolítica deixa de significar apenas acompanhar notícias internacionais. Passa a fazer parte da gestão de risco.
A mensagem deixada por Lohbauer em Goiânia não foi a de um país sem perspectivas. Pelo contrário.
O Brasil é um país de fortes contradições: empresários continuam investindo, o agronegócio encontra novos mercados, regiões inteiras se transformam e novos negócios surgem, enquanto a política e as instituições ainda precisam oferecer maior previsibilidade para quem pensa no longo prazo.
Para famílias que administram negócios e patrimônios destinados a atravessar gerações, talvez essa seja a reflexão mais importante. Governos mudam. Eleições terminam. Taxas de juros sobem e descem. Relações internacionais se reorganizam. Novas tecnologias surgem e mercados se transformam.
A família empresária, porém, continua precisando decidir.
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