O que as transformações geopolíticas, econômicas e institucionais em curso significam para quem empreende, investe e precisa tomar decisões de longo prazo? Essa foi a reflexão conduzida pelo cientista político Christian Lohbauer durante sua participação no Family Office Summit Ribeirão Preto.
Em sua palestra, Christian partiu do cenário internacional para analisar as contradições do Brasil e os desafios que devem entrar no radar das famílias empresárias. Estados Unidos, China, agronegócio, energia, educação, demografia e ambiente institucional fizeram parte de uma análise que buscou conectar as grandes transformações globais à realidade de quem conduz negócios e patrimônio no país.
Para Christian Lohbauer, um dos pontos de partida para compreender o momento atual é reconhecer que o mundo se tornou mais instável. “O mundo hoje é um lugar menos seguro do que ele era 15 anos atrás”, afirmou. Segundo ele, a mudança de postura dos Estados Unidos é uma das peças importantes desse cenário. Depois de décadas defendendo maior abertura comercial, o país passou a adotar políticas mais protecionistas, provocando efeitos sobre comércio, investimentos e relações internacionais.
Apesar das discussões sobre uma possível perda de protagonismo americano, Christian não acredita em uma decadência dos Estados Unidos. Na sua avaliação, o país continua reunindo uma capacidade extraordinária de inovação, geração de riqueza e desenvolvimento tecnológico. Ao mesmo tempo, a ascensão da China transformou profundamente o equilíbrio econômico mundial. Christian chamou a atenção para o avanço chinês no comércio, na infraestrutura, na indústria e na tecnologia e para o fato de o país ter se tornado o principal parceiro comercial do Brasil.
Para ele, não se trata de uma repetição da bipolaridade da Guerra Fria, mas de uma nova configuração de poder. Democracias liberais e regimes autocráticos se reorganizam em um cenário mais complexo, no qual decisões tomadas pelas grandes potências repercutem diretamente nas economias e nas empresas.
Ao trazer a discussão para o Brasil, Christian Lohbauer apresentou um país marcado por contrastes. De um lado, enorme capacidade produtiva, recursos naturais, tecnologia e empresários capazes de competir globalmente. De outro, baixa produtividade, burocracia, insegurança regulatória, informalidade e dificuldades estruturais na educação.
Na avaliação do cientista político, o Brasil avançou em diversos aspectos nas últimas décadas, mas poderia ter avançado muito mais. Para ele, o país deixou passar oportunidades importantes e continua encontrando dificuldade para transformar suas vantagens em desenvolvimento consistente.
Essa combinação entre potencial e frustração aparece em uma expressão usada por Christian durante a palestra: “O Brasil cansa”. O sentimento, segundo ele, nasce da alternância entre notícias que revelam graves problemas e exemplos concretos da extraordinária capacidade brasileira de realizar.
Um dos casos citados foi a expansão das usinas de etanol de milho. Para Christian, empreendimentos dessa complexidade mostram um Brasil capaz de reunir engenharia, tecnologia, automação e capital para construir novos setores e ampliar sua capacidade produtiva.
Foi ao falar do agronegócio que Christian apresentou alguns dos exemplos mais positivos de sua análise. Com experiência profissional ligada às cadeias de proteína animal, suco de laranja e insumos agrícolas, ele destacou o grau de sofisticação alcançado pelo setor.
“Quanto de inteligência tem num grão de soja?”, provocou. A pergunta sintetiza sua visão de que a competitividade brasileira no campo não pode ser atribuída apenas à disponibilidade de terra ou às condições naturais.
Por trás da produção estão décadas de pesquisa, tecnologia, engenharia, logística e desenvolvimento empresarial. Christian também citou o suco de laranja concentrado que deixa o Brasil e chega a mercados distantes preservando qualidade como exemplo da inteligência incorporada às cadeias produtivas brasileiras.
Mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelo agronegócio, ele acredita que a demanda mundial por alimentos continuará oferecendo oportunidades ao país. Na sua análise, duas das grandes inseguranças globais estão justamente em áreas nas quais o Brasil ocupa posição privilegiada: alimento e energia.
Ao analisar essas vantagens, Christian foi enfático: “Produção de alimento e produção de energia sustentável são uma demanda internacional. São as duas grandes inseguranças internacionais: comida e energia. O Brasil tem as duas.”
Para ele, mesmo os ciclos mais difíceis não eliminam essa vantagem estrutural. A demanda mundial continuará existindo, e o país reúne conhecimento, recursos naturais e capacidade empresarial para ocupar uma posição estratégica nessas duas áreas.
A matriz energética brasileira foi outro ponto de destaque. Christian chamou a atenção para a elevada participação de fontes renováveis e para uma matriz elétrica ainda mais limpa, características que colocam o Brasil em posição diferenciada diante das discussões globais sobre segurança energética e transição para fontes menos intensivas em carbono.
Outro tema levado por Christian às famílias empresárias foi a mudança demográfica. Durante muitos anos, discutiu-se se o Brasil conseguiria enriquecer antes de envelhecer. Para ele, essa questão já foi respondida: o país envelheceu sem ter alcançado esse objetivo.
A mudança na pirâmide etária terá consequências para o mercado de trabalho, a Previdência, o consumo e as próprias empresas. Com menos jovens chegando e uma população vivendo por mais tempo, a disponibilidade de profissionais tende a se tornar uma questão cada vez mais importante.
Nesse cenário, Christian acredita que a imigração ganhará espaço. Ele relatou exemplos de trabalhadores provenientes de países latino-americanos e africanos que já estão se estabelecendo no Brasil e encontrando oportunidades em diferentes setores da economia.
Para o cientista político, o país deveria se preparar para organizar melhor esse movimento. A imigração pode ajudar a suprir demandas de mão de obra e trazer também profissionais qualificados, como técnicos e engenheiros, para regiões e atividades que já enfrentam dificuldades de contratação.
Enquanto novos imigrantes chegam ao Brasil, Christian chamou a atenção para um fenômeno no sentido contrário: a saída de brasileiros qualificados. Jovens deixam o país para estudar ou trabalhar no exterior e, diante de boas oportunidades, muitas vezes decidem permanecer fora.
O chamado brain drain representa, na sua avaliação, uma perda importante de capital humano. Para as empresas, esse movimento aumenta a competição por profissionais qualificados justamente em um momento de transformação demográfica e tecnológica.
A questão está diretamente ligada a outro problema abordado na palestra: a educação. Christian considera que o Brasil ainda encontra grande dificuldade para transformar os recursos destinados ao setor em qualidade de ensino, formação profissional e produtividade.
Para quem empreende, os efeitos aparecem de maneira concreta na contratação. Empresas precisam de profissionais preparados para atividades cada vez mais sofisticadas, enquanto o sistema educacional ainda enfrenta problemas na formação básica e na preparação de professores.
A análise de Christian avançou ainda sobre o ambiente político e institucional brasileiro. Em sua visão, parte importante dos obstáculos ao desenvolvimento está relacionada à dificuldade de construir regras previsíveis e instituições capazes de oferecer maior segurança para quem investe.
Empresários brasileiros aprenderam a atravessar inflação, planos econômicos, recessões, crises políticas, mudanças tributárias e alterações regulatórias. Essa capacidade de adaptação é uma característica importante de quem empreende no país, mas não elimina o custo da imprevisibilidade.
Para famílias empresárias, segurança jurídica e estabilidade institucional também devem ser consideradas na tomada de decisão. Quanto maior a incerteza sobre as regras futuras, maior o risco incorporado a investimentos, projetos empresariais e decisões patrimoniais.
Christian também defendeu que empresários não se afastem completamente das discussões que afetam o ambiente no qual seus negócios estão inseridos. Isso não significa, necessariamente, participação partidária, mas interesse pelas decisões públicas e pelos seus impactos sobre empresas e sociedade.
Na parte final da palestra, Christian propôs pensar a participação individual a partir de círculos concêntricos. Antes de olhar para os grandes problemas nacionais, cada pessoa pode começar pela família, pela escola dos filhos, pela rua, pelo bairro e pelas organizações das quais participa.
Para quem tem uma empresa, a primeira responsabilidade é preservar o negócio, sua capacidade de produzir e os empregos que gera. Mas, na visão de Christian Lohbauer, as lideranças empresariais também podem participar das discussões que ajudam a definir o ambiente econômico e institucional.
Outro desafio é a própria formação de opinião. Em meio ao volume de informações, às redes sociais e às fake news, ele destacou a dificuldade crescente de selecionar fontes, avaliar dados e compreender o que realmente importa para as decisões de longo prazo.
Apesar do tom crítico de parte da análise, a mensagem de Christian Lohbauer não foi de pessimismo em relação ao futuro do país. Ao contrário: ele destacou repetidamente a capacidade brasileira de produzir, inovar e criar riqueza, mesmo diante de condições adversas.
O Brasil reúne recursos naturais, produção de alimentos, energia, mercado consumidor, conhecimento e capacidade empresarial. Em diferentes regiões, há empresas e empreendedores desenvolvendo negócios sofisticados e competitivos, muitas vezes longe das grandes manchetes.
O cenário internacional também ajuda a colocar os desafios brasileiros em perspectiva. Estados Unidos, Europa e outras regiões enfrentam seus próprios problemas econômicos, sociais, políticos e demográficos.
Diante desse cenário, Christian Lohbauer resumiu sua percepção: “Aqui, mesmo que seja por demérito do mundo, acho que ainda dá para acreditar. Ainda dá para acreditar.”
Para famílias empresárias, a principal reflexão talvez esteja justamente nesse contraste. O Brasil continua operando abaixo de seu potencial, mas esse potencial permanece presente. Compreender o mundo, acompanhar as mudanças do país e avaliar seus impactos sobre empresas e patrimônio tornou-se parte da responsabilidade de quem toma decisões para as próximas gerações.
Entre riscos e oportunidades, a palestra de Christian Lohbauer deixou uma provocação importante: em um mundo mais instável, entender o ambiente ao redor dos negócios é tão importante quanto compreender o que acontece dentro deles.
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