Entrar em uma empresa familiar já consolidada pode parecer um caminho natural para a nova geração. Mas ocupar uma cadeira é diferente de conquistar legitimidade para tomar decisões, liderar equipes e definir os próximos passos de um negócio construído décadas antes de sua chegada.
Foi sobre esse desafio que Marcelo Moraes, CEO da RFM, falou durante o Family Office Summit Ribeirão Preto 2026. Filho do fundador Márcio Moraes, ele compartilhou sua experiência ao ingressar em uma empresa que já tinha mais de 30 anos de história e encontrar, dentro dela, o espaço para construir sua própria trajetória.
“Você entra numa empresa que já tem 30, 35 anos, você senta na cadeira e fala: tá bom, o que eu vou fazer?”, contou.
A resposta não veio do sobrenome. Foi construída aos poucos, passando pela operação, conhecendo diferentes áreas da empresa e identificando onde a nova geração poderia efetivamente agregar valor.
A preparação de Marcelo começou antes de assumir qualquer posição relevante na RFM. Formado em engenharia, ele já havia convivido com o negócio desde criança, acompanhando o pai em obras. Mas Márcio estabeleceu uma condição importante para sua entrada profissional na empresa familiar.
“É legal ser filho do dono, mas tem que ter chefe”, relembrou o fundador durante o painel.
Marcelo Moraes passou quatro anos trabalhando na Bueno Netto, onde teve chefes, regras e responsabilidades que não estavam relacionadas à sua condição de herdeiro. Quando retornou à RFM, também não começou pela liderança.
Foi estagiário de obra, trabalhou diretamente em empreendimentos e passou por áreas como suprimentos, orçamento e novos negócios. Esse percurso permitiu conhecer a empresa por dentro e, principalmente, construir relações com as pessoas que já faziam parte daquela história.
Quando começou a ganhar espaço na gestão, Marcelo se deparou com uma questão comum a muitas novas gerações de empresas familiares: como conquistar a confiança de uma equipe acostumada a trabalhar diretamente com os fundadores?
“Será que eu vou conseguir ter o respeito? É pelo sobrenome ou é pelo que eu faço?”, questionou.
Para Marcelo Moraes, ter passado pela operação foi fundamental nesse processo. Em vez de chegar diretamente a uma posição de comando, ele teve a oportunidade de mostrar o que conseguia entregar e construir credibilidade ao longo do tempo.
“Isso foi ajudando a criar relacionamento com as pessoas e mostrar que não era sobrenome, era o que eu podia entregar, o que eu conseguia fazer e as novas ideias que estava trazendo para a empresa.”
A experiência revela uma dimensão importante da sucessão familiar: a posição societária pode ser herdada, mas a legitimidade como liderança precisa ser conquistada.
Ao retornar à RFM, Marcelo encontrou uma empresa com diferentes frentes de atuação. A construção estava consolidada, havia negócios em hotelaria e concessões, enquanto a incorporação vivia um momento menos ativo.
Foi justamente ali que ele identificou uma oportunidade.
“De tudo que eu estou vendo aqui, acho que o braço que a gente está mais passivo e que eu enxergo que é um bom momento para a gente acelerar é o braço de incorporação”, relembrou Marcelo Moraes.
A resposta dos sócios foi direta: então vá em frente..
A partir daí, começou a estruturar projetos, buscar investidores e identificar em qual segmento a RFM poderia competir com maior segurança.
Marcelo decidiu concentrar a estratégia no altíssimo padrão. A escolha não surgiu apenas de uma percepção de mercado, mas das competências que a RFM já havia acumulado.
A empresa tinha experiência em obras sofisticadas, havia atuado em hotelaria de alto padrão e já conhecia o público que consumia esse tipo de produto. Em vez de buscar crescimento em diferentes segmentos, a decisão foi aprofundar essa especialização.
“A gente é forte no altíssimo padrão, é o que a gente sabe fazer e o que a gente tem segurança em fazer.”
A empresa passou então a desenvolver um pipeline de projetos e a buscar capital mais institucional. E de 2018 em diante, os lançamentos e o volume da empresa foram ficando maiores.
Esse crescimento abriu caminho para uma nova etapa da RFM e, em 2022, para a formação de uma joint venture com a Even.
A sucessão, no caso da RFM, não significou apenas trocar quem estava na liderança. Marcelo passou a construir uma identidade própria para o novo ciclo da empresa.
A atuação foi concentrada em poucos bairros de São Paulo e em empreendimentos de altíssimo padrão. A estratégia passou a valorizar projetos autorais, arquitetura, serviços, wellness e uma compreensão mais ampla sobre o comportamento do cliente.
“Na nossa visão como empresa, o luxo é ter tempo”, afirmou.
A partir dessa ideia, a RFM começou a pensar não apenas no tamanho ou acabamento dos apartamentos, mas em como o empreendimento poderia oferecer conveniência e qualidade de vida aos moradores.
Para Marcelo, essa busca pelo diferencial também está relacionada à tentativa de preservar algo menos tangível da empresa familiar: sua identidade.
“O que a gente tenta trazer é sempre o a mais, o diferencial. É tentar buscar dentro dos nossos produtos alguma coisa que se diferencie das outras empresas e tentar trazer essa alma para os nossos projetos.”
A trajetória de Marcelo teve um elemento importante do outro lado da relação: a decisão do fundador de efetivamente abrir espaço.
Ao falar sobre a transição, Márcio Moraes reconheceu que sua permanência no centro das decisões dificultaria a consolidação da liderança do filho. Clientes, parceiros e colaboradores continuariam recorrendo ao fundador enquanto ele permanecesse ocupando aquele lugar.
A reorganização societária iniciada em 2022 ajudou a estabelecer essa separação. Márcio seguiu para um novo desafio profissional, enquanto Marcelo passou a conduzir a nova fase da incorporação da RFM.
Essa passagem mostra que preparar um sucessor é apenas uma parte do processo. Em algum momento, a geração anterior também precisa permitir que a seguinte tome decisões, assuma riscos e seja reconhecida por aquilo que constrói.
A experiência compartilhada por Marcelo Moraes no Family Office Summit Ribeirão Preto 2026 mostra uma sucessão que combina preparação, experiência externa, conhecimento da operação e autonomia para propor novos caminhos.
Ele não precisou reproduzir a trajetória do pai para dar continuidade à empresa. Ao contrário, encontrou uma frente menos desenvolvida, identificou onde poderia contribuir e passou a construir sobre as competências acumuladas pela RFM ao longo de décadas.
Para famílias empresárias, talvez esteja aí uma das reflexões mais importantes desse processo. Continuidade não significa pedir à próxima geração que faça exatamente o que a anterior fez.
O sobrenome pode abrir a porta da empresa familiar. Mas transformar legado em futuro depende da capacidade da nova geração de conquistar seu próprio espaço, construir legitimidade e encontrar aquilo que ela própria pode acrescentar à história.
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