Nascer em uma família empresária significa receber oportunidades, patrimônio, relações e uma história construída muito antes de sua chegada. No entanto, também significa conviver com expectativas, responsabilidades e, muitas vezes, com o peso de um sobrenome.
Foi a partir dessa reflexão que Nelson Cury Filho abriu o Family Office Summit Goiânia 2026, promovido pelo Fórum Brasileiro da Família Empresária (FBFE).
Ao falar sobre os desafios das novas gerações, Nelson chamou atenção para uma mudança importante. Para muitos herdeiros, dar continuidade ao legado familiar já não significa necessariamente repetir o caminho percorrido por pais e avós.
A nova geração na empresa familiar quer participar, mas também deseja construir uma identidade própria, encontrar sentido no que faz e entender qual papel pretende ocupar dentro da família empresária.
Nelson conhece esse dilema de perto. Terceira geração de uma família ligada ao agronegócio e filho mais velho, ele contou que cresceu acreditando que trabalhar na empresa familiar seria uma consequência natural. Naquele momento, questionar se aquele era realmente o seu caminho sequer fazia parte da conversa.
Hoje, segundo ele, essa dinâmica mudou. Antes de assumir uma posição na empresa da família, o herdeiro precisa se perguntar se está ali por vocação, propósito e capacitação ou apenas porque aquele caminho oferece segurança, remuneração e uma posição já estabelecida.
A resposta importa porque sucessão não deveria significar apenas ocupar o lugar deixado pela geração anterior. Para Nelson, cada integrante da família precisa entender onde pode efetivamente contribuir.
Isso também exige reconhecer que propriedade, controle e gestão são papéis diferentes. Um herdeiro pode ser proprietário sem administrar a empresa. Pode participar das decisões societárias sem ocupar uma função executiva. Da mesma forma, pode construir sua carreira fora do negócio familiar e ainda exercer seu papel como acionista de maneira responsável.
Essa separação se torna ainda mais importante à medida que as famílias crescem. Sem papéis claros, irmãos, primos e diferentes gerações podem chegar ao momento da sucessão com expectativas completamente distintas sobre o futuro dos ativos e dos negócios.
Por isso, Nelson defendeu que essas conversas aconteçam antes de se tornarem urgentes. É preciso falar sobre patrimônio, preparar acionistas, definir responsabilidades e criar espaço inclusive para aqueles que não desejam trabalhar na empresa familiar.
Ao mesmo tempo, sair da operação não significa se afastar do legado. Para Nelson, a nova geração deve receber espaço para empreender, desenvolver experiências profissionais fora da empresa e assumir responsabilidades reais dentro da estrutura familiar. Pode liderar um comitê, participar do family office, integrar um conselho ou preparar-se para exercer melhor seu papel como acionista.
É nesse contexto que surge uma das provocações centrais de sua fala: “cada geração tem que ser uma geração fundadora”.
A ideia não é recomeçar tudo a cada ciclo, mas preservar a capacidade de construir. O fundador original criou algo onde antes não havia nada. As gerações seguintes, embora recebam uma estrutura pronta, também precisam encontrar onde colocar sua própria energia empreendedora, responsabilidade e visão de futuro.
Essa construção passa ainda por uma conversa especialmente delicada: a longevidade aumentou, os fundadores permanecem ativos por mais tempo e as novas gerações querem participar. Entretanto, muitas famílias discutem a entrada dos jovens sem conversar abertamente sobre a transição de quem esteve no comando por décadas.
O desafio, portanto, não está apenas em preparar quem chega, mas também em construir novos papéis para quem deixa a operação.
No fim, perpetuar uma família empresária talvez dependa justamente desse equilíbrio: preservar valores sem impedir mudanças, respeitar a história sem exigir que ela seja repetida e oferecer às novas gerações algo maior do que patrimônio.
Oferecer espaço para que construam também a própria história.
Saiba mais sobre o palestrante!
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