Crescer em uma família com uma longa história empresarial não significa necessariamente seguir o mesmo caminho das gerações anteriores. Para Marcelo Biagi, a continuidade do legado familiar passou pela construção de negócios próprios, pela identificação de oportunidades e, mais recentemente, pela participação na estruturação de um family office, o Maubisa, que reúne os investimentos e os interesses de diferentes gerações.
Durante o Family Office Summit Ribeirão Preto 2026, Marcelo Biagi compartilhou sua trajetória como empreendedor e acionista da Maubisa, em uma conversa conduzida por Nelson Cury Filho. A apresentação deu continuidade ao depoimento de seu pai, Maurílio Biagi Filho, e mostrou como a família passou de uma estrutura predominantemente operacional, com empresas industriais e agrícolas, para um modelo de gestão patrimonial e investimentos.
Nascido em Ribeirão Preto, Marcelo passou os primeiros nove anos de vida na Usina Santa Elisa, onde acompanhou de perto a rotina de trabalho do pai. Entre suas lembranças estão as jornadas prolongadas, os fins de semana dedicados aos negócios e as paradas dentro da usina para observar o funcionamento das máquinas. A convivência com aquele ambiente industrial despertou seu interesse pelo empreendedorismo, embora, segundo ele, o pai nunca tenha imposto aos filhos uma carreira nos negócios da família.
Ainda jovem, Marcelo estudou nos Estados Unidos e passou uma temporada em Miami, acompanhando a operação comercial da Zanini, empresa do grupo que fornecia equipamentos para usinas. A experiência permitiu conhecer a dinâmica de vendas em outros mercados e contribuiu para sua formação profissional. De volta ao Brasil, cursou Administração de Empresas em Ribeirão Preto e começou a buscar oportunidades para empreender.
Sua primeira iniciativa foi a criação da Total Corretora de Seguros, desenvolvida a partir de uma oportunidade identificada no próprio ambiente empresarial da família. Ao perceber o volume de seguros contratado pelas empresas do grupo, Marcelo Biagi decidiu estruturar uma corretora com uma proposta comercial competitiva, inicialmente concentrada em grandes clientes corporativos.
A estratégia envolvia trabalhar com comissões reduzidas e desenvolver um conhecimento aprofundado dos riscos e das necessidades de cada empresa. Com o tempo, a corretora ampliou sua carteira, atendendo usinas e outros grupos empresariais. Em 2001, diante das transformações do setor e do avanço das multinacionais, Marcelo decidiu vender o negócio, em uma operação que marcou sua primeira experiência relevante de saída de um empreendimento.
Paralelamente, havia ingressado no setor de locação de veículos. Aos 25 anos, foi apresentado pelo pai a um executivo que estava desenvolvendo um negócio nessa área e decidiu participar do projeto. A empresa passou a operar com a bandeira Hertz em três estados, mas enfrentou dificuldades para crescer em um mercado competitivo e de margens pressionadas.
A experiência adquirida nas usinas ajudaria Marcelo a identificar uma oportunidade pouco explorada pelas grandes locadoras. Ao observar os problemas enfrentados pelas empresas do agronegócio com a manutenção e a renovação de suas frotas, percebeu que havia espaço para desenvolver um serviço especializado, adaptado às condições de uso e às necessidades operacionais do setor.
Com uma gestão mais estruturada e uma proposta comercial específica, a locadora passou a concentrar sua atuação no agronegócio e alcançou uma frota superior a cinco mil veículos. Em 2018, Marcelo Biagi recebeu uma proposta de aquisição da Unidas e decidiu vender a empresa, em uma operação que também envolveu troca de ações.
A trajetória reforçou uma convicção que ele compartilhou durante a palestra: “Você tem que ter um diferencial. Se você não tiver esse diferencial, você não prospera no Brasil.”
Além dos empreendimentos próprios, Marcelo participou diretamente de importantes movimentos de expansão dos negócios familiares. Atuou na comercialização de açúcar da Santa Elisa e integrou a Cristalcev, empresa formada por oito usinas para desenvolver a comercialização conjunta, inclusive no mercado de exportação.
Posteriormente, diante de uma reorganização societária da família, optou por participar da expansão do Grupo Moema. Durante nove anos, esteve envolvido no desenvolvimento de um conjunto de seis usinas, formando um importante polo de produção sucroenergética. Em 2009, as unidades foram vendidas à Bunge, em mais um movimento relevante de realização de ativos.
Essas experiências contribuíram para uma transformação na maneira como a família passou a administrar seu patrimônio. Embora a Maubisa tenha sido constituída anteriormente, foi em 2005 que começou a estruturação de seu escritório de investimentos, reunindo ativos e recursos provenientes das diferentes operações empresariais.
Marcelo destacou que a iniciativa exigiu uma decisão importante de seus pais, Maurílio e Vera: compartilhar as informações patrimoniais com os filhos e construir um modelo de gestão mais transparente e organizado. À medida que novas vendas de participações empresariais aconteciam, os recursos eram incorporados à estrutura, permitindo ampliar e diversificar os investimentos.
A mudança também representou uma nova definição sobre o futuro da família. Em vez de continuar concentrando sua atuação na operação direta de empresas, os acionistas decidiram priorizar a administração de investimentos e a participação em negócios como investidores estratégicos.
“Nós escolhemos ser uma família investidora”, afirmou Marcelo, ressaltando que a decisão foi construída em consenso entre os irmãos.
Para sustentar essa transformação, a família investiu na formação dos acionistas e na implementação de mecanismos de governança. Os integrantes participaram de programas de educação executiva, incluindo cursos na Fundação Dom Cabral e no Insper, com o objetivo de desenvolver conhecimentos comuns e preparar todos para as responsabilidades de uma estrutura patrimonial compartilhada.
Atualmente, a Maubisa conta com conselho de família e comitês dedicados às principais áreas de investimento, como agronegócio, imóveis e ativos financeiros. Os comitês incluem participação de conselheiros externos e permitem que os acionistas contribuam para as decisões conforme seus interesses e conhecimentos. A estrutura também utiliza uma gestora independente para apoiar a administração dos investimentos financeiros.
Mais do que organizar recursos, Marcelo ressaltou a importância de estabelecer valores e objetivos compartilhados. União, educação, independência, ética, respeito e comprometimento estão entre os princípios que orientam a convivência familiar e as decisões empresariais.
A preparação das próximas gerações já faz parte dessa estrutura. A família realiza encontros periódicos, incluindo reuniões na fazenda e viagens, que permitem aproximar os mais jovens da história, dos valores e das responsabilidades relacionadas ao patrimônio. O objetivo é construir vínculos e criar oportunidades de aprendizado antes que eles precisem assumir decisões como acionistas.
A participação de Marcelo ao lado do pai trouxe uma dimensão pessoal à discussão sobre sucessão. Ao final da apresentação, Maurílio destacou que era a primeira vez que acompanhava um dos filhos expondo publicamente sua trajetória daquela maneira. Também ressaltou a independência empreendedora dos quatro filhos e o orgulho de observar os caminhos construídos por cada um.
Para Marcelo Biagi, a experiência de participar da transformação dos negócios familiares e, ao mesmo tempo, desenvolver seus próprios empreendimentos demonstra que a continuidade de uma família empresária não depende necessariamente da permanência nos mesmos setores ou empresas.
A história da Maubisa evidencia uma transição em que a experiência acumulada pelas gerações anteriores foi preservada, mas o modelo de atuação precisou evoluir. Ao combinar empreendedorismo, liquidez, diversificação e governança, a família construiu uma estrutura voltada à continuidade do patrimônio e à preparação de novos acionistas.
O desafio agora é manter essa organização à medida que a família cresce, garantindo que as próximas gerações compreendam não apenas os investimentos que recebem, mas também as decisões, os valores e a trajetória empresarial que tornaram possível sua construção.
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