Uma empresa que atravessa mais de quatro décadas dificilmente chega ao presente seguindo exatamente o caminho imaginado por seus fundadores. Novos mercados aparecem, crises mudam planos, oportunidades exigem decisões rápidas e, em algum momento, chega também a hora de preparar espaço para uma nova geração.
Foi a partir da própria trajetória que Márcio Botana Moraes, fundador e sócio da RFM, compartilhou algumas dessas experiências durante o Family Office Summit Ribeirão Preto. Uma história iniciada em 1979, praticamente sem capital, e marcada por incorporações, construção, hotelaria, concessões e diferentes movimentos de transformação do negócio.
Mais do que apresentar uma cronologia da empresa, Márcio mostrou como a disposição para experimentar, recuar quando necessário e começar novamente ajudou a construir a RFM ao longo de mais de 40 anos.
A origem foi simples. Márcio e seu sócio iniciaram uma construtora na garagem de uma casa próxima ao Clube Harmonia, em São Paulo. Nos primeiros anos, realizaram obras e construíram mais de 200 casas de alto padrão.
Em 1982, decidiram avançar para a incorporação. Sem recursos para comprar o terreno do primeiro empreendimento, convenceram os proprietários de uma área no Jardim Guedala a fazer uma permuta.
Ali nasceu um dos primeiros projetos da RFM. A partir daquele momento, a empresa começou a ampliar sua atuação e a experimentar formatos que ainda eram pouco usuais no mercado brasileiro.
“A gente não tinha nada”, relembrou Márcio ao contar o início da trajetória.
No fim dos anos 1990, uma viagem a Nova York colocou Márcio diante do mercado de lofts. Nos Estados Unidos, antigos galpões eram transformados em residências. A RFM decidiu adaptar o conceito ao Brasil de uma maneira diferente: construir um loft desde o início.
A ideia foi recebida com desconfiança pelo empreendedor americano consultado pela equipe. Ainda assim, a RFM seguiu adiante e lançou o Loft São Paulo 1, no Jardim Guedala. O sucesso levou a uma sequência de novos projetos.
Essa disposição para testar modelos também levou a empresa para a hotelaria. O Txai Resort, em Itacaré, nasceu de uma ideia inspirada nos hotéis Aman, mas precisou ser desenvolvido com uma marca própria.
Márcio contou que os primeiros bangalôs foram pensados inclusive com um plano alternativo: se o hotel não funcionasse, poderiam ser transformados em casas. O projeto deu certo e abriu caminho para outras experiências no setor.
Nos anos seguintes, a RFM participou de projetos em Trancoso e da construção de hotéis como o Tivoli Praia do Forte e o Tivoli da Alameda Santos. Em meados dos anos 2000, a onda de abertura de capital levou a empresa a considerar um movimento ainda maior.
Em 2007, depois de uma série de roadshows no Brasil e no exterior, o grupo captou US$ 500 milhões para uma companhia voltada ao desenvolvimento de hotéis e empreendimentos imobiliários.
Pouco depois, veio a crise financeira de 2008. Diante de um cenário completamente diferente daquele no qual o plano havia sido concebido, Márcio decidiu interromper a expansão inicialmente prevista.
“2008, muitos lembram, o mundo quebrou, e nós tínhamos 300 milhões de dólares no caixa. A gente falou: para.” completa Márcio Botana Moraes.
A decisão ilustra um aspecto recorrente de sua trajetória: empreender também exige reconhecer quando uma estratégia precisa ser revista.
A mudança de cenário levou a novos movimentos. A empresa se uniu a uma operação de hotelaria urbana e participou da criação da BHG, que chegou a reunir dezenas de hotéis antes de o grupo ser vendido, em 2014.
Depois da saída, a família recomprou o Txai e retomou sua aproximação com a incorporação. Mas a busca por novos negócios continuou.
A RFM passou por experiências com shoppings populares, projetos ligados a terminais de transporte e concessões. Em Congonhas, por exemplo, participou do desenvolvimento e da operação de salas VIP. Em São Paulo, envolveu-se ainda em projetos como o da Usina São Paulo.
Ao contar essa sucessão de movimentos, Márcio resumiu uma característica que considera própria de quem empreende: “A gente não consegue ficar parado. A gente vai, dá um passo, aparece um negócio.”
A trajetória da RFM mostra uma empresa que não cresceu seguindo uma linha reta. Alguns negócios permaneceram, outros foram vendidos e determinadas estratégias foram abandonadas quando o cenário deixou de justificá-las.
O que permaneceu foi a capacidade de avaliar oportunidades e utilizar as competências acumuladas em construção e incorporação para entrar em novas frentes.
Essa lógica continua presente atualmente. A atuação do grupo reúne incorporação, construção, hotelaria e concessões, ao mesmo tempo em que novos projetos são analisados de acordo com sua aderência à estratégia.
“Empreendedor é isso. Eu acho que a gente não para. Se aparecer um novo negócio, a gente vai olhar”, afirmou Márcio.
Depois de décadas à frente da empresa, um dos movimentos mais relevantes de Márcio não envolveu um novo empreendimento imobiliário, mas a própria continuidade da RFM.
Quando Marcelo Moraes, seu filho mais novo, decidiu seguir a engenharia, Márcio optou por não levá-lo diretamente para uma posição de liderança na empresa familiar. Antes, o filho passou quatro anos trabalhando em outra companhia, tendo chefes e construindo experiência fora da estrutura da família.
Quando retornou, começou pela área de construção e, posteriormente, avançou para a incorporação. A transição ganhou uma nova dimensão em 2022, quando a RFM estruturou uma parceria que permitiu iniciar um novo ciclo no negócio.
Para Márcio, havia uma questão importante: enquanto o fundador permanecesse no centro das decisões, a tendência seria que clientes, parceiros e equipe continuassem procurando por ele.
“Eu precisava sair daquele ambiente”, explicou Márcio Botana Moraes.
Márcio seguiu sua própria trajetória empresarial, enquanto Marcelo passou a assumir protagonismo na nova fase da RFM. A companhia ganhou uma estrutura diferente, novos sócios e uma geração disposta a imprimir sua própria visão sobre o negócio.
A história apresentada por Márcio Moraes no Family Office Summit Ribeirão Preto mostra que continuidade não significa simplesmente preservar aquilo que funcionou no passado.
Ao longo de mais de quatro décadas, a RFM entrou e saiu de negócios, atravessou crises, testou conceitos, buscou capital, mudou estratégias e encontrou novas oportunidades. A capacidade de adaptação tornou-se parte da própria identidade empresarial.
Agora, essa mesma lógica aparece na transição entre gerações. Em vez de exigir que a segunda geração apenas reproduza a trajetória do fundador, Márcio Botana Moraes abriu espaço para que um novo ciclo pudesse ser construído.
Talvez esteja aí uma das principais reflexões deixadas por sua palestra: em uma empresa familiar, o legado não está apenas nos negócios que permanecem, mas também na capacidade de criar condições para que a próxima geração continue empreendendo.
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