Integrante da terceira geração da família fundadora da Transpes, Ruz Gonzalez mostrou, no Family Office Summit Belo Horizonte 2026, como novas gerações podem encontrar seu próprio caminho a partir de uma empresa familiar com seis décadas de história. Ao identificar oportunidades em um setor ainda pouco explorado no Brasil, transformou o desejo de construir algo próprio em uma nova trajetória voltada à infraestrutura social.
Quando foi convidado a falar sobre legado no Family Office Summit Belo Horizonte 2026, Ruz Gonzalez escolheu uma palavra para definir o que o conceito representa para ele e para o papel das novas gerações: transformação.
Fundada por seus avós há cerca de 60 anos, a Transpes cresceu transportando máquinas e equipamentos de grandes dimensões e participou de momentos importantes do desenvolvimento da infraestrutura brasileira. Ainda na primeira geração, a empresa esteve envolvida no transporte de equipamentos para a construção de Brasília. Depois, com a segunda geração, diversificou sua atuação para setores como energia, mineração e óleo e gás.
Quando chegou a vez de Ruz encontrar seu lugar nessa história, ele percebeu que também queria construir uma contribuição própria. Não era uma questão de se afastar do legado familiar, mas de construir, a partir dele, uma trajetória que também tivesse sua própria contribuição.
Ruz já havia experimentado esse caminho dentro da própria Transpes. Ainda jovem, abriu a unidade de óleo e gás da empresa, criando uma frente que não existia anteriormente. Também empreendeu fora dos negócios familiares, no setor de eventos. Ao longo dessa trajetória, passou a buscar também novos caminhos nos quais pudesse gerar transformação.
Foi estudar privatizações, concessões e parcerias público-privadas fora do Brasil e começou a observar como esses modelos poderiam ser utilizados não apenas em rodovias ou grandes projetos de infraestrutura, mas também em áreas diretamente relacionadas à vida das pessoas. A oportunidade que encontrou estava na chamada infraestrutura social, especialmente educação e saúde. Ao voltar para o Brasil, propôs à família a criação de uma área de novos negócios para estudar concessões e PPPs. Era um setor diferente da atividade tradicional da Transpes e, naquele momento, representava um novo campo de atuação a ser conhecido e desenvolvido.
“Eu queria fazer algo realmente que transformasse”.
A ideia era utilizar instrumentos já conhecidos em outros segmentos de infraestrutura para construir e operar equipamentos públicos ao longo de contratos de longo prazo, não apenas entregar um prédio, mas permanecer responsável por sua infraestrutura e manutenção. O projeto, entretanto, levaria anos para amadurecer.
Por volta de 2016, em meio a mais uma crise econômica brasileira, a estrutura dedicada à nova área foi reduzida. Ruz seguiu desenvolvendo o projeto. Naquele período, surgiu uma oportunidade em Belo Horizonte: um projeto de PPP envolvendo escolas públicas que estava disponível em meio a um processo de desinvestimento. Enquanto o mercado se concentrava em ativos maiores, Ruz identificou uma oportunidade naquele projeto. Tinha 27 ou 28 anos quando começou a trabalhar para viabilizar sua aquisição. A negociação, que inicialmente parecia poder avançar rapidamente, acabou se estendendo por cinco anos.
Ao longo desse período, Ruz manteve o projeto em desenvolvimento, mesmo diante dos desafios impostos por uma negociação de longo prazo. Naquele momento, conta, já imaginava o que gostaria de construir: dezenas ou centenas de escolas e um projeto capaz de atingir milhares de crianças. Mas ainda não havia conseguido concluir a primeira aquisição. Depois de anos de desenvolvimento e negociação, conseguiu fechar o negócio.
A conclusão da aquisição marcou também uma nova etapa na relação entre o projeto e a família. A iniciativa passou a integrar uma discussão mais ampla dentro da estrutura empresarial familiar. Por se tratar de um novo setor, o desenvolvimento do negócio passou a envolver também novas discussões sobre conselho, governança e processos de decisão. O que começou com 27 escolas passou a ganhar escala.
Em Belo Horizonte, a operação se expandiu para escolas e centros de saúde. Posteriormente, o grupo conquistou uma nova concessão em Caxias do Sul, com a construção de outras 31 escolas. A experiência empresarial construída ao longo das gerações e historicamente ligada à infraestrutura passou, assim, a encontrar também um novo campo de aplicação na infraestrutura social.
É nesse ponto que a trajetória contada por Ruz ganha uma dimensão particularmente relevante para famílias empresárias. Dar continuidade a uma história também pode significar encontrar novas formas de contribuir para aquilo que foi construído pelas gerações anteriores. O avô encontrou oportunidades em um Brasil que precisava transportar máquinas e construir infraestrutura. As gerações seguintes diversificaram a empresa e ampliaram sua atuação. Ruz encontrou uma nova forma de contribuir para essa trajetória de transformação.
“Todo mundo tem que ter capacidade de construir a sua própria história, de fazer os seus próprios degraus para ter alguma história para contar”.
A frase amplia a discussão sobre sucessão. Além de pensar sobre o papel que novas gerações poderão ocupar na empresa da família, também é possível considerar o que elas poderão acrescentar à história que receberam.
A conexão entre essas trajetórias talvez seja menos distante do que parece. Ruz lembrou que a Transpes sempre teve como uma de suas características a capacidade de realizar operações de alta complexidade. Transportar equipamentos de grandes dimensões exige planejamento, engenharia, precisão, coordenação e capacidade de executar operações complexas. Na infraestrutura social, essa experiência com desafios complexos encontrou um novo campo de aplicação.
A trajetória de Ruz passou também pelo desenvolvimento de projetos de construção e operação de equipamentos que atendem diretamente a população. Para Ruz, é justamente aí que está a continuidade do legado: não necessariamente na permanência no mesmo setor, mas na preservação da capacidade de transformar.
Ao explicar o funcionamento das PPPs, Ruz destacou uma característica que considera essencial ao modelo. A empresa privada não é contratada apenas para construir uma escola ou unidade de saúde e entregar a obra ao poder público. Ela permanece responsável pela infraestrutura durante um longo período. No caso apresentado por ele, isso envolve atividades como manutenção, limpeza, portaria, tecnologia da informação e alimentação, enquanto as funções pedagógicas permanecem sob responsabilidade da Secretaria de Educação e a atividade médica, no caso da saúde, cabe ao poder público.
A qualidade da operação é acompanhada por verificadores independentes e interfere diretamente na remuneração da concessionária. Esse desenho cria, segundo Ruz, um incentivo para que o ativo permaneça em boas condições durante toda a duração do contrato, e não apenas no momento da inauguração.
A atuação junto ao setor público trouxe para a palestra uma discussão importante sobre como valores e princípios orientam decisões em relações de longo prazo com diferentes administrações públicas. Ruz respondeu a partir do propósito que estabeleceu para o negócio:
“Nosso propósito é trazer dignidade para o cidadão e transformar os indicadores de gestão pública”.
Para ele, valores precisam funcionar como critérios de decisão e orientar as relações e oportunidades das quais a empresa participa. A mesma lógica, afirmou, precisa chegar à equipe. Na operação, profissionais responsáveis por atividades de apoio são chamados de “agentes de transformação”, numa tentativa de conectar tarefas cotidianas ao impacto final do trabalho: oferecer um ambiente público bem cuidado para crianças, famílias e pacientes.
Propósito, nesse sentido, deixa de ser apenas uma declaração institucional e passa a orientar a cultura da organização.
A história apresentada por Ruz Gonzalez dialoga diretamente com um dos principais desafios das famílias empresárias: como permitir que novas gerações desenvolvam autonomia e, ao mesmo tempo, contribuam para a continuidade daquilo que foi construído antes delas?
Sua trajetória sugere que, para as novas gerações, essas duas possibilidades podem caminhar juntas. Ruz encontrou seu lugar construindo uma contribuição própria dentro de uma trajetória empresarial iniciada pelas gerações anteriores. Para isso, precisou experimentar, estudar, empreender e construir credibilidade em torno de uma ideia que representava um novo campo de atuação.
Com o tempo, o novo projeto passou também a integrar a história empresarial familiar. A transformação aconteceu nos dois sentidos. O projeto ganhou escala e consolidou uma nova frente de atuação. E a nova geração encontrou uma maneira própria de contribuir para o legado.
Ao final, o que começou como a busca por um caminho próprio tornou-se também uma forma de dar continuidade à estrada iniciada pelas gerações anteriores. Não pela repetição. Mas pela capacidade de transformar novamente.
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