Em um país onde os juros elevados tornam a renda fixa especialmente atraente, investir em empresas privadas pode parecer uma escolha pouco intuitiva. Mas é justamente nos períodos em que o capital se torna mais escasso que surgem algumas das oportunidades mais interessantes para investidores dispostos a assumir riscos e manter uma visão de longo prazo.
Essa foi uma das reflexões apresentadas por Rafael Bassani, sócio-diretor da Spectra Investments, durante o Family Office Summit Ribeirão Preto 2026. Em sua palestra, o executivo analisou a evolução do mercado de investimentos alternativos no Brasil, os fatores que influenciam os retornos do Private Equity e as oportunidades que surgem quando investidores direcionam recursos para a economia real.
A Spectra nasceu de uma observação sobre a maneira como as famílias empresárias constroem patrimônio. Ao longo de gerações, muitas delas criaram empresas, reinvestiram os recursos produzidos pelos próprios negócios e, eventualmente, utilizaram a liquidez gerada para adquirir novas companhias. A proposta da gestora foi transformar essa dinâmica em uma estratégia de investimentos capaz de reunir diferentes empresas privadas em um portfólio diversificado.
Segundo Rafael Bassani, essa lógica permite participar do crescimento de negócios que não estão necessariamente representados nos produtos financeiros tradicionais. Mais do que comprar participações, a estratégia envolve acompanhar a evolução das empresas, realizar os investimentos quando surgem oportunidades de venda e reinvestir os recursos ao longo de sucessivos ciclos.
A discussão ganha relevância em um momento no qual a renda fixa absorve uma parcela importante do capital disponível no país. Com taxas elevadas, muitos investidores preferem aplicações mais líquidas e previsíveis, enquanto empresas privadas encontram maiores dificuldades para captar recursos ou atrair compradores.
Para Bassani, essa combinação pode criar oportunidades para quem consegue avaliar os riscos e investir com disciplina. Durante a apresentação, ele relatou que a Spectra tem encontrado empresas negociadas a múltiplos de quatro a cinco vezes o EBITDA, frequentemente com estruturas de pagamento que incluem parcelas a prazo.
Na avaliação do executivo, o desconto observado em determinadas transações reflete não apenas as características dos negócios, mas também a escassez de compradores e o prêmio de risco exigido para investir no Brasil.
O raciocínio contrasta com a tendência de buscar investimentos justamente nos setores que estão recebendo mais atenção do mercado. Bassani alertou para os riscos de uma concentração excessiva de recursos em uma mesma classe de ativos, citando o movimento ocorrido com o Venture Capital e investimentos em empresas de tecnologia.
A Spectra, que chegou a manter aproximadamente 30% de seus fundos alocados em Venture Capital, começou a reduzir essa exposição em 2018 e 2019. Em 2021, a participação havia caído para cerca de 5%, patamar que, segundo ele, permaneceu relativamente estável desde então.
A decisão ilustra a importância de ajustar a composição dos investimentos ao longo do tempo, sem depender exclusivamente de uma tese ou tentar antecipar qual setor terá o melhor desempenho no próximo ciclo.
“Você precisa ter diversificação, conseguir fazer ajustes táticos e sempre ter exposições que sejam balanceadas”, afirmou Rafael Bassani.
Um dos pontos centrais da apresentação foi a diferença entre os fatores que impulsionam os retornos do Private Equity no Brasil e nos Estados Unidos. Segundo os estudos apresentados pela Spectra, uma parcela relevante do desempenho dos investimentos americanos nas últimas décadas esteve relacionada à expansão dos múltiplos de avaliação das empresas e ao uso de endividamento nas aquisições.
No Brasil, onde o crédito para esse tipo de operação é mais restrito e os custos de financiamento são elevados, o cenário é diferente. Rafael Bassani argumentou que o crescimento das receitas e dos resultados operacionais das companhias têm um peso muito maior na geração de valor.
Isso significa que, para o investidor, a capacidade de identificar empresas com potencial real de expansão pode ser mais determinante do que a expectativa de revendê-las por múltiplos superiores aos pagos na aquisição.
A gestora acompanha essa evolução por meio de pesquisas desenvolvidas em parceria com o Insper, reunindo informações sobre empresas com potencial de investimento, desempenho operacional e características do mercado de Private Equity na América Latina. Os dados são utilizados para avaliar tendências, comparar estratégias e orientar as decisões de alocação.
Outra transformação destacada por Bassani foi a especialização crescente dos gestores brasileiros. Em vez de grandes estruturas que atuam simultaneamente em diferentes segmentos, o mercado passou a reunir um número maior de gestoras dedicadas a teses específicas, com conhecimento aprofundado de determinados setores ou tipos de operação.
Para a Spectra, essa especialização permite acessar oportunidades que exigem competências muito particulares, como investimentos em empresas em dificuldades financeiras, aquisições de participações secundárias e Search Funds.
O modelo também favorece a diversificação entre gestores e estratégias. Em vez de concentrar os recursos em poucas companhias ou depender de uma única equipe de investimentos, a gestora construiu uma rede de especialistas capazes de identificar oportunidades em diferentes momentos do ciclo econômico.
Durante a palestra, Rafael Bassani destacou que a indústria brasileira também passou por uma mudança importante no perfil de seus investidores. Se anteriormente os recursos eram provenientes sobretudo de investidores estrangeiros e institucionais, nos últimos anos as famílias empresárias brasileiras ganharam protagonismo nas captações.
Essa participação aproxima o mercado de Private Equity de quem conhece a realidade operacional das empresas. Segundo o executivo, muitos investidores da Spectra construíram suas trajetórias no ambiente empresarial e contribuem com experiência setorial, análise de oportunidades e participação em conselhos de companhias investidas.
Ao mesmo tempo, a maior dependência do capital das famílias traz desafios. Quando esses grupos precisam reinvestir em seus próprios negócios, reduzir endividamento ou preservar liquidez, o volume disponível para novos investimentos pode diminuir. O resultado é um mercado mais seletivo, no qual a capacidade de manter recursos disponíveis se torna uma vantagem competitiva.
Bassani também chamou a atenção para a importância de transformar valorização patrimonial em dinheiro efetivamente devolvido aos investidores. Em ativos privados, a ausência de liquidez pode prolongar os investimentos e dificultar a realização dos retornos projetados.
Nesse contexto, a Spectra tem priorizado oportunidades em empresas de médio porte, cujo mercado de fusões e aquisições permanece ativo mesmo em períodos de menor atividade nas bolsas. Segundo os números apresentados, a gestora já distribuiu mais de R$4 bilhões aos investidores e devolveu integralmente o capital dos fundos captados até 2020.
A combinação entre especialização, diversificação e disciplina na realização dos investimentos sustenta a visão de Bassani sobre a criação de riqueza no longo prazo. Para ele, não existe uma única classe de ativos capaz de oferecer os melhores resultados em todos os momentos. O desafio está em construir um portfólio que participe de diferentes oportunidades sem depender excessivamente de nenhuma delas.
A mensagem apresentada em Ribeirão Preto foi especialmente relevante para famílias empresárias acostumadas a avaliar negócios pela capacidade de produzir resultados ao longo de muitos anos. Em um ambiente de juros elevados e capital escasso, o crescimento das empresas continua sendo uma fonte potencial de geração de valor, mas exige conhecimento, paciência e critérios rigorosos de investimento.
Mais do que identificar a próxima tendência do mercado, a questão é compreender onde existem negócios sólidos, preços compatíveis com os riscos e condições para transformar crescimento operacional em retorno efetivo para o investidor.
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