Uma empresa que se tornou a maior rede de depilação a laser do mundo começou com três sócios, duas unidades e uma única máquina, transportada de um endereço para outro durante dois anos.
A história da Espaçolaser foi apresentada por Paulo Morais, cofundador da companhia e atual CEO da PGMP Investimentos, durante o Family Office Summit Ribeirão Preto 2026. Mais do que os resultados alcançados, o empresário compartilhou os erros, as dificuldades e as decisões que marcaram sua trajetória de mais de 30 anos no empreendedorismo.
Antes de construir a Espaçolaser, Paulo viveu uma experiência familiar que influenciaria sua relação com o trabalho. Aos 16 anos, acompanhou a quebra do escritório de contabilidade do pai e a mudança da família para Ribeirão Preto, onde o pai encontrou emprego em uma usina.
A recuperação começou anos depois, quando os dois decidiram reconstruir o escritório em São Paulo. Enquanto cursava Direito na Universidade de São Paulo, Paulo assumiu a rotina contábil do negócio, que cresceu até reunir cerca de 40 colaboradores.
Ao concluir a faculdade, porém, decidiu seguir outro caminho. Tornou-se advogado e, aos 26 anos, recebeu honorários expressivos por uma causa que lhe permitiram realizar o desejo de empreender.
Vieram negócios em diferentes setores, entre eles coleta de resíduos, máquinas de brinquedos e restaurantes. Alguns prosperaram, outros foram encerrados, mas todos contribuíram para sua formação como empresário.
“Os negócios grandes começam pequenos, como a grande maioria das companhias brasileiras.”
Em 2004, ao lado de dois sócios, Paulo identificou uma oportunidade em um mercado ainda pouco desenvolvido. A depilação a laser era um tratamento restrito principalmente às clínicas dermatológicas de alto padrão, com preços elevados para a maior parte da população.
A proposta da Espaçolaser era ampliar o acesso ao serviço, oferecendo uma experiência de qualidade por um preço mais acessível. O desafio inicial, entretanto, estava na própria operação.
Com apenas uma máquina para atender duas unidades, os sócios precisavam transportar diariamente um equipamento de aproximadamente 114 quilos. A segunda máquina só seria adquirida dois anos depois.
A expansão ganhou velocidade quando a empresa encontrou nas plataformas de compras coletivas uma maneira de atrair novos clientes. Em uma única campanha, com apenas oito lojas, foram vendidos 1.800 tratamentos.
O crescimento foi expressivo, mas trouxe uma dependência perigosa. Quando as plataformas perderam credibilidade e deixaram de atrair consumidores, a Espaçolaser quase foi comprometida pela concentração em um único canal de aquisição de clientes.
A solução foi desenvolver internamente um processo mais estruturado de captação e relacionamento com o público.
Outro momento decisivo aconteceu em 2014, quando Paulo percebeu que uma nova concorrente poderia ganhar rapidamente espaço no mercado. Em resposta, buscou uma parceria com Xuxa Meneghel, que se tornou sócia e embaixadora da marca.
Em junho de 2015, a Espaçolaser lançou seu modelo de franquias. Enquanto a expectativa habitual do setor era comercializar entre dez e vinte unidades no primeiro ano, a companhia vendeu 120 franquias no lançamento.
Para Paulo, o modelo representava mais do que uma alternativa de financiamento da expansão. Cada franqueado passava a ser também um empreendedor comprometido com o desempenho da operação.
O crescimento exigiu mudanças na gestão. Em 2014, Paulo Morais havia deixado sua atuação predominantemente estratégica para assumir o dia a dia da companhia. A partir daí, a rede passou a abrir, segundo seu relato, entre 120 e 140 unidades por ano.
Em 2016, a entrada do fundo de private equity L Catterton contribuiu para fortalecer a governança e preparar a organização para novos ciclos de crescimento.
O maior teste viria em 2020, com a pandemia. Dependente de lojas físicas para prestar seus serviços, a Espaçolaser precisou encontrar maneiras de continuar vendendo mesmo com as unidades fechadas.
Paulo assumiu o compromisso de preservar os empregos e mobilizou os colaboradores para manter o relacionamento comercial com os clientes. A empresa também contratou uma linha de crédito de R$ 200 milhões como proteção financeira, que, segundo ele, não precisou ser utilizada para cobrir perdas operacionais.
A resiliência demonstrada naquele período abriu caminho para uma nova etapa. Em fevereiro de 2021, a Espaçolaser realizou sua abertura de capital na B3, em uma operação de aproximadamente R$ 2,6 bilhões.
Mas, para Paulo Morais, chegar à Bolsa não representava o encerramento da trajetória empreendedora. Depois do IPO, iniciou um processo estruturado de sucessão executiva, transferindo a liderança operacional e permanecendo no conselho de administração.
A decisão também trouxe uma reflexão importante sobre o papel dos fundadores. Em determinadas fases, a presença de quem construiu o negócio pode dificultar mudanças necessárias à própria evolução da companhia.
Com a transição concluída, Paulo fundou a PGMP Investimentos, por meio da qual passou a desenvolver e investir em novos negócios, especialmente nos segmentos de bem-estar, saúde, beleza e varejo.
A experiência acumulada ao longo dessa jornada deu origem ao livro Da Execução ao Bilhão, apresentado durante a palestra. Para o empresário, o principal aprendizado não está na capacidade de identificar oportunidades, mas na disciplina necessária para transformá-las em negócios sustentáveis.
“O que diferencia o que de fato é bom mesmo de verdade não é a boa ideia, como ela é executada.”
Ao revisitar os acertos e os erros de sua trajetória, Paulo Morais reforçou que empreender exige capacidade de adaptação, disposição para enfrentar dificuldades e equipes comprometidas com a entrega de resultados.
“Foco obstinado na execução. É assim que a gente tem que conversar com as equipes com quem a gente trabalha.”
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