Nascer em uma família empresária pode abrir portas, oferecer referências e criar oportunidades. Mas também traz uma pergunta que acompanha muitos integrantes das novas gerações: é preciso trabalhar no negócio da família para dar continuidade ao legado? Leopoldo Jereissati escolheu outro caminho. Filho de Carlos Francisco Jereissati, ligado à trajetória do Grupo Jereissati, controlador do Iguatemi e do Grande Moinho Cearense, construiu sua carreira fora das empresas familiares e fundou a All Set, grupo de comunicação que lidera há 13 anos.
Durante o Family Office Summit Ribeirão Preto 2026, Leopoldo falou sobre essa escolha e sobre o que aprendeu ao construir uma trajetória própria sem romper com suas origens. Uma história que mostra que pertencimento e autonomia não precisam ocupar lados opostos.
Antes de empreender, Leopoldo passou por empresas como Editora Abril e Sadia/BRF. A decisão de seguir uma carreira fora dos negócios da família não nasceu de um conflito, mas da vontade de descobrir aquilo que conseguiria construir por conta própria. Havia também um desejo de provar valor. Como integrante de uma família empresária reconhecida, ele sabia que suas escolhas profissionais seriam inevitavelmente observadas a partir dessa origem.
Ao criar a All Set, encontrou na comunicação um campo no qual poderia desenvolver suas próprias competências, construir relações e assumir riscos diretamente ligados às suas decisões. O negócio começou pequeno e exigiu anos de investimento e reinvestimento. Segundo Leopoldo, durante os primeiros cinco ou seis anos, praticamente todo o caixa permanecia dentro da própria empresa.
Era uma trajetória diferente daquela seguida por outros integrantes da família — e justamente por isso, uma trajetória que precisava encontrar sua própria legitimidade. Um dos pontos mais interessantes da palestra foi a maneira como Leopoldo tratou sua relação com a família. Para ele, construir um negócio independente nunca significou rejeitar a história empresarial de onde veio.
“Quem trabalha fora do grupo familiar, muitas vezes a expectativa da conversa de bar é que você tenha brigado com a família, ou que você seja um rebelde e ache que está tudo errado na família. No meu caso, é o oposto”, afirmou.
Leopoldo reconhece que a estrutura familiar lhe proporcionou segurança para assumir riscos que talvez fossem mais difíceis em outro contexto. Enquanto ele construía a All Set, seus irmãos estavam envolvidos nos negócios da família e seu pai continuava empreendendo. Essa consciência, segundo ele, também exige humildade.
“Eu só empreendi, só tomei o nível de risco que eu pude tomar porque eu tinha os meus irmãos trabalhando com o grupo executivo e o meu pai empreendendo em outro lugar.”
Reconhecer essa base não diminui o mérito da construção individual. Ao contrário, permite compreender de maneira mais madura quais oportunidades vieram da família e quais resultados dependeram das escolhas de cada um.
Ao empreender em outro setor, Leopoldo precisou desenvolver competências que não estavam diretamente relacionadas aos negócios tradicionais da família.
Na comunicação, construiu conhecimento sobre marcas, audiência, conteúdo e transformação dos meios de comunicação. A experiência acumulada ao longo dos anos construiu um repertório profissional próprio.
Esse caminho também trouxe uma relação diferente com o próprio sobrenome. Em vez de ocupar uma posição previamente existente, ele precisou criar uma empresa, formar uma equipe, conquistar clientes e desenvolver uma cultura empresarial. Para integrantes das novas gerações, experiência de Leopoldo traz uma reflexão importante: construir um caminho fora da empresa familiar não significa necessariamente abandonar o legado. Pode ser também uma forma de desenvolver competências, autonomia e identidade antes de decidir qual papel ocupar dentro do ecossistema da família.
Aos 40 anos, Leopoldo Jereissati contou estar entrando em uma nova fase. Se no início da carreira havia uma necessidade maior de se provar e construir algo a partir do zero, agora as perguntas são outras.
“Eu saio daquele menino com 15, 16 anos que queria se provar, provar valor, empreender, sair do zero, fazer alguma coisa legal”, afirmou.
Com uma empresa estruturada e uma equipe capaz de conduzir a operação, passou a refletir mais sobre onde deseja colocar seus recursos mais escassos: tempo, energia e capital. A mudança de perspectiva também altera a maneira de enxergar o sucesso. Construir uma organização que não dependa integralmente do fundador permite que ele escolha melhor onde sua presença efetivamente gera valor.
Para Leopoldo Jereissati, talvez não ter ingressado diretamente no grupo familiar tenha sido, nesse sentido, um presente. A escolha lhe permitiu construir independência profissional e, ao mesmo tempo, preservar espaço para outras dimensões da vida. Foi ao falar sobre legado que Leopoldo sintetizou uma das ideias mais fortes de sua palestra.
“Honrar o nosso legado não necessariamente é repetir a história de quem veio antes.” afirma Leopoldo Jereissati.
Em famílias empresárias, é comum que continuidade seja associada à entrada dos filhos na companhia fundada pelas gerações anteriores. Mas essa é apenas uma das possibilidades. O conhecimento adquirido fora do negócio familiar pode ampliar repertório, criar novas competências e até gerar contribuições futuras para a própria família. O caminho individual também pode produzir novos negócios, relações e experiências que passam a integrar o patrimônio daquela geração.
Para Leopoldo, o desafio está em construir autonomia sem transformar essa escolha em ruptura. Ele definiu essa ideia como a possibilidade de “ser grande sem deixar de pertencer”.
Ao falar sobre sua trajetória, Leopoldo não procurou dissociá-la das condições que recebeu. Pelo contrário, reconheceu explicitamente que fazer parte de uma família empresária lhe deu uma base a partir da qual foi possível assumir determinados riscos. Mas, para ele, essa condição também cria responsabilidade.
“Se você tem um colchão, cara, pula”, afirmou, ao defender que aqueles que tiveram acesso a oportunidades utilizem essa segurança também para empreender, gerar empregos e criar novos negócios.
A reflexão desloca a discussão da herança para aquilo que cada geração decide fazer com as condições que recebeu. Não se trata apenas de preservar patrimônio ou ocupar posições existentes. Trata-se também de transformar oportunidades em capacidade de realização.
A trajetória apresentada por Leopoldo Jereissati no Family Office Summit Ribeirão Preto 2026 amplia a própria ideia de sucessão. Nem todo integrante da nova geração precisa ocupar uma posição executiva na empresa familiar. Alguns podem seguir para a gestão, outros para a propriedade ou governança, enquanto outros encontrarão fora do grupo o espaço para construir sua identidade profissional.
O que conecta essas trajetórias é a consciência de pertencimento e responsabilidade diante da história recebida. No caso de Leopoldo, construir a All Set foi uma maneira de encontrar esse espaço. Um caminho próprio, com riscos e escolhas próprias, mas sem a necessidade de negar a origem para afirmar a independência e sucesso.
Talvez esteja justamente aí uma das principais provocações de sua palestra: o legado de uma família empresária não precisa produzir cópias de quem veio antes. Ele também pode oferecer a base para que cada geração descubra sua própria maneira de empreender,
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