No Family Office Summit Belo Horizonte 2026, realizado pelo Fórum Brasileiro da Família Empresária – FBFE, Alexandre Drabowicz, Diretor Global de Investimentos do Indosuez Wealth Management, analisou o cenário econômico internacional e mostrou como mudanças geopolíticas, inteligência artificial, juros e transformações no sistema financeiro reforçam a importância da diversificação de investimentos e da visão de longo prazo.
Guerras, pressões sobre os preços de energia, juros elevados, avanço da inteligência artificial e mudanças no equilíbrio entre as grandes economias vêm tornando o cenário internacional cada vez mais difícil de prever. Para famílias empresárias e investidoras, porém, a diversificação de investimentos ganha ainda mais importância diante da incerteza e não deve ser substituída por decisões motivadas pela paralisia ou pelo medo.
Ao apresentar um panorama da economia mundial e de seus impactos sobre os investimentos, Drabowicz destacou que acontecimentos capazes de provocar fortes reações no curto prazo nem sempre produzem os efeitos inicialmente esperados. Para ele, a capacidade de adaptação da economia global continua sendo um elemento importante na tomada de decisão dos investidores.
Não tomar decisões movidas pelo pânico
Ao analisar os impactos das tensões geopolíticas e das oscilações nos preços do petróleo sobre os mercados, Drabowicz destacou que a recomendação aos clientes permaneceu a mesma: manter uma perspectiva de longo prazo. “Desde o começo da guerra, nossa recomendação foi manter os investimentos”, afirmou.
A leitura apresentada durante o encontro é de que, apesar dos choques recentes, existem fundamentos econômicos que continuam sustentando oportunidades em diferentes mercados.
Os Estados Unidos permanecem como uma economia relevante para a alocação global, enquanto a Ásia ganha cada vez mais importância, impulsionada especialmente pelo crescimento da China e pelo protagonismo da região em setores estratégicos ligados à tecnologia. A Europa, por outro lado, exige maior cautela diante de questões relacionadas ao custo da energia e aos desafios estruturais enfrentados por algumas de suas principais economias.
A Ásia assume um novo protagonismo
Um dos pontos destacados por Drabowicz foi a transformação da Ásia dentro da economia mundial. A região deixou de ocupar apenas o papel de grande centro industrial e passou a concentrar competências essenciais para setores como semicondutores, tecnologia e inteligência artificial.
China, Coreia e Taiwan estão no centro de cadeias produtivas fundamentais para a nova economia digital. Esse movimento também amplia a relevância dos mercados emergentes dentro de uma estratégia internacional de investimentos. Na avaliação apresentada durante a palestra, essa combinação entre crescimento, tecnologia e preços relativos dos ativos cria oportunidades para investidores que buscam diversificação para além dos mercados tradicionalmente dominantes.
Inteligência artificial: do investimento à produtividade
A inteligência artificial também ocupou espaço importante na apresentação. Drabowicz chamou atenção para o volume de capital destinado à infraestrutura necessária para o desenvolvimento da tecnologia e para a questão que acompanha esse movimento: esses investimentos conseguirão gerar retorno?
Para ele, já existem sinais de monetização e, mais do que uma transformação restrita às empresas de tecnologia, a IA pode provocar um salto de produtividade na economia. Durante o debate, ele destacou especialmente a evolução da inteligência artificial para sistemas capazes não apenas de responder perguntas, mas de executar tarefas.
Na prática, agentes de IA poderão organizar compromissos, realizar pesquisas, negociar serviços e executar atividades que hoje consomem tempo de profissionais e empresas. “Pense em um ganho de produtividade”, provocou. Se esse movimento se confirmar em escala, seus efeitos poderão alcançar crescimento econômico, salários, inflação e, consequentemente, as próprias decisões de investimento.
Juros mais altos também criam oportunidades
Outro movimento analisado foi a elevação das taxas de juros de longo prazo em diferentes regiões do mundo. O aumento do endividamento dos governos e a necessidade crescente de financiamento por parte das grandes empresas criam maior competição pelo capital disponível.
Para o investidor, no entanto, esse cenário também pode abrir oportunidades. Drabowicz destacou que a renda fixa internacional voltou a oferecer alternativas relevantes para investidores interessados em diversificação de investimentos entre diferentes moedas e geografias.
Essa perspectiva dialogou diretamente com a introdução de Charles Mini, que chamou atenção para um aspecto particularmente importante para famílias empresárias: muitas delas já possuem grande parte de seu risco concentrado no próprio país por meio de suas empresas, imóveis e demais ativos.
Nesse contexto, internacionalizar uma parcela do patrimônio financeiro pode funcionar não apenas como estratégia de retorno, mas também de diversificação de riscos. “Um patrimônio de uma família faz sentido diversificar”, afirmou Mini, destacando que essa diversificação pode ocorrer tanto geograficamente quanto entre diferentes classes de ativos.
Um mundo menos dependente do dólar
A diversificação também começa a aparecer na própria composição das reservas internacionais. Segundo Drabowicz, investidores institucionais e bancos centrais vêm buscando reduzir a dependência exclusiva do dólar e ampliar a exposição a outras moedas e ativos.
O ouro, nesse cenário, voltou a ganhar relevância como instrumento de diversificação dentro de portfólios globais. Mais do que antecipar qual moeda ou mercado ocupará uma posição dominante no futuro, o movimento reforça uma transformação maior: a gestão patrimonial internacional está se tornando progressivamente mais diversificada.
Diversificação de investimentos para atravessar diferentes ciclos
Ao final da apresentação, a mensagem deixada às famílias empresárias foi menos sobre tentar prever o próximo acontecimento e mais sobre construir patrimônios capazes de atravessar diferentes cenários. Em um ambiente no qual guerras, tecnologia, juros, moedas e relações entre países podem mudar rapidamente, concentração aumenta vulnerabilidades.
Para famílias que já carregam uma exposição relevante ao Brasil por meio de seus negócios, pensar globalmente pode significar distribuir riscos entre diferentes geografias, moedas e classes de ativos. A incerteza continuará fazendo parte dos mercados. O desafio não é eliminá-la, mas construir uma estratégia patrimonial preparada para atravessá-la.
Nenhum comentário foi deixado.