Em palestra no Family Office Summit Belo Horizonte 2026, Nelson Cury Filho, fundador do FBFE, discutiu os impactos da maior transferência de riqueza da história e defendeu que famílias empresárias antecipem conversas sobre patrimônio, autonomia, propósito e o papel das novas gerações.
Uma das maiores transferências de riqueza da história já está em curso. Nas próximas décadas, trilhões de dólares passarão de uma geração para outra, colocando famílias empresárias diante de uma questão que vai muito além de testamentos, estruturas patrimoniais ou investimentos: quem está preparando aqueles que receberão esse patrimônio?
Foi a partir dessa provocação que Nelson Cury Filho, fundador do Fórum Brasileiro da Família Empresária (FBFE), abriu o Family Office Summit Belo Horizonte 2026, realizado no dia 24 de setembro.
Para Nelson, a discussão sobre sucessão precisa deixar de acontecer apenas quando a transferência patrimonial se aproxima. Ela deve começar muito antes — enquanto diferentes gerações ainda podem conversar sobre expectativas, responsabilidades, escolhas e sobre o futuro que desejam construir juntas.
A dimensão dessa transformação ajuda a explicar a urgência do tema. Segundo o Global Wealth Report 2025, do UBS, mais de US$ 83 trilhões devem ser transferidos globalmente ao longo dos próximos 20 a 25 anos. O Brasil ocupa uma posição especialmente relevante nesse movimento: quase US$ 9 trilhões devem mudar de mãos no país, o segundo maior volume entre os mercados analisados, atrás apenas dos Estados Unidos.
Mas receber patrimônio é apenas uma parte dessa transição.
A conversa que muitas famílias ainda não tiveram
Durante a palestra, Nelson fez uma pergunta simples aos participantes: quantos já haviam conversado com os filhos sobre o que acontecerá depois da morte do fundador?
Pouquíssimas mãos se levantaram.
Para ele, esse silêncio revela uma das fragilidades do processo sucessório. Famílias discutem estruturas societárias, planejamento patrimonial, conselhos e investimentos, mas muitas vezes deixam para depois conversas mais difíceis: quem deseja permanecer no negócio? Quem quer construir outro caminho? Que papel cada integrante pretende exercer? E, principalmente, a família deseja continuar unida em torno daquele patrimônio depois que o fundador não estiver mais presente?
O desafio se torna ainda maior porque propriedade, gestão e identidade não são a mesma coisa. Herdar ações de uma companhia não significa necessariamente assumir sua gestão. Da mesma forma, pertencer a uma família empresária não deveria determinar toda a trajetória profissional e pessoal de um herdeiro.
Construir um caminho próprio sem romper com a família
Nelson trouxe sua própria história para essa discussão.
Ao perceber que poderia passar anos esperando por uma sucessão que talvez não acontecesse da maneira ou no momento imaginado, decidiu deixar a operação da empresa familiar e construir uma trajetória própria.
Essa experiência o levou a um tema que considera central para a nova geração: individuação.
Na definição apresentada por ele, individuar-se significa conseguir se descolar das expectativas dos pais e construir uma identidade própria — não como uma ruptura com a família, mas como uma forma mais madura de permanecer conectado a ela.
“Não é romper com a família, mas estar com a família sendo valorizado por aquilo que você é, não por aquilo que seu pai ou sua mãe deseja que você seja”, afirmou.
A questão ganha força diante de uma geração que demonstra maior interesse por autonomia, propósito e impacto. O desafio das famílias, portanto, não é simplesmente convencer os jovens a permanecerem no negócio familiar, mas criar condições para que eles entendam quais papéis desejam ocupar.
Trabalhar ou não na empresa? Participar do conselho? Empreender fora do negócio original? Tornar-se apenas acionista? Atuar nas iniciativas sociais da família?
Isso significa falar sobre patrimônio, separar os papéis de família, propriedade e gestão, envolver cônjuges nas discussões relevantes e permitir que os membros mais jovens assumam responsabilidades reais gradualmente.
Também significa preparar os próprios fundadores para uma pergunta frequentemente adiada: qual será o seu papel quando chegar o momento de deixar a operação?
Nesse processo, governança e planejamento patrimonial continuam fundamentais. Mas não substituem as conversas humanas que precisam acontecer dentro da família.
A riqueza pode mudar de mãos por força do tempo e da sucessão. O legado, porém, depende de preparação.
E talvez seja justamente essa a principal diferença entre simplesmente transferir patrimônio e preparar uma família para atravessar gerações.
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