Durante o Family Business Innovation 2025, realizado no Hotel Fasano em Belo Horizonte, Thiago Silveira apresentou um panorama claro e objetivo de por que Hong Kong se consolidou como um dos principais hubs globais para famílias empresárias que desejam acessar o mercado asiático. A partir de uma provocação de Nelson Cury Filho: “precisamos ajudar as famílias brasileiras a fazerem negócios na Ásia” Thiago mostrou que, embora a Ásia pareça distante, complexa e culturalmente desafiadora, existe uma plataforma capaz de tornar essa aproximação mais segura, estruturada e estratégica: Hong Kong.
Ele começou situando o público geograficamente. Hong Kong está localizada no sul da China, em uma região extremamente densa e conectada. Em um raio de quatro horas de voo a partir da cidade, é possível alcançar os principais mercados da Ásia; em cinco horas, chega-se a metade da população mundial. Thiago comparou essa escala à distância entre São Paulo e Manaus para facilitar a visualização. Com mais de 140 companhias aéreas e mais de 200 destinos internacionais, não é exagero dizer que Hong Kong ocupa, hoje, o “coração da Ásia”.
Mas o diferencial de Hong Kong vai além da geografia. Thiago Silveira destacou que se trata de uma cidade profundamente internacional, algo que não é regra na região. Países como Japão, Coréia, Vietnã, Indonésia ou Malásia possuem línguas, culturas e sistemas jurídicos muito particulares, muitas vezes pouco abertos ao investidor estrangeiro. Hong Kong, por outro lado, carrega a herança de ter sido colônia britânica por 100 anos, até 1997, e sempre foi porta de entrada de negócios ocidentais na região. Hoje, cerca de 10 mil empresas com sedes fora da cidade mantêm operações baseadas ali, incluindo companhias dos Estados Unidos, Reino Unido, Japão, China continental e Singapura. Destas, quase 1.500 utilizam Hong Kong como sede regional, ou seja, um centro efetivo de tomada de decisão.
Nesse contexto, o conceito de “One Country, Two Systems” ganha relevância. Hong Kong faz parte da China, mas preserva um sistema econômico, político e jurídico próprio. A cidade conta com moeda própria, o Hong Kong Dollar, atrelado ao dólar americano e um sistema legal baseado na Common Law britânica. Para empresas brasileiras e famílias empresárias, isso traz um grau de segurança jurídica e previsibilidade próximo ao dos ambientes ocidentais, especialmente em temas como contratos corporativos, arbitragem e proteção de propriedade intelectual.
Em disputas e registros de patentes, por exemplo, é comum que empresas estrangeiras optem pelos tribunais de Hong Kong, justamente por essa familiaridade. Além disso, o inglês é língua oficial, os contratos são redigidos em inglês, e não há controle de capital, de bens ou de informação – ao contrário do que se observa na China continental, onde várias plataformas ocidentais são restritas.
Outro ponto sublinhado por Thiago Silveira foi o caráter liberal da economia de Hong Kong. A cidade pratica impostos corporativos baixos, com alíquota reduzida para os primeiros lucros e uma taxa padrão ainda bastante competitiva para patamares internacionais. Não há VAT local, nem tributação sobre diversos tipos de propriedade em moldes tradicionais. A lógica é clara: imposto baixo para atrair negócios, capital e desenvolvimento econômico. Mesmo após episódios como os protestos de 2019 e as dificuldades da pandemia, Thiago lembrou que os rankings internacionais seguem colocando Hong Kong entre as economias mais livres, como um dos principais centros financeiros do mundo e um dos destinos preferidos para arbitragem internacional.
Ao falar de inovação, Thiago Silveira evidenciou que Hong Kong também se posiciona como uma plataforma tecnológica relevante. Em uma cidade de 7,5 milhões de habitantes, já são mais de 4.700 startups atuando em áreas como fintech, logística, e-commerce e TIC. Três universidades locais aparecem entre as 50 melhores do mundo, e a proximidade com Shenzhen, a poucos minutos de trem de alta velocidade, coloca a cidade dentro de uma região de aproximadamente 100 milhões de pessoas e PIB de 2 trilhões de dólares, onde estão sedes de gigantes como BYD e Huawei. Entrar em Hong Kong, portanto, é também se inserir na chamada Greater Bay Area, um ecossistema completo de indústria, consumo, tecnologia e capital.
Na segunda parte da palestra, Thiago Silveira detalhou o trabalho da Invest Hong Kong, agência oficial do governo que apoia empresas estrangeiras em seus projetos de internacionalização. Com 32 escritórios pelo mundo e ele próprio à frente do escritório brasileiro, a Invest Hong Kong já ajudou grupos como Bradesco, Alpargatas, Boticário, Pátria Investimentos e outros a estruturarem presença na região.
A atuação vai desde a fase de planejamento, esclarecendo dúvidas básicas, comparando Hong Kong com outras jurisdições, indicando parceiros locais até o suporte à abertura de empresas, contas bancárias, localização de escritórios, contratação de equipes e conexão com o ecossistema de serviços e inovação. Tudo isso de forma confidencial, customizada e sem custo direto para as empresas, por se tratar de uma plataforma do governo local voltada ao desenvolvimento econômico.
Com o crescimento recente dos family offices, especialmente chineses, Hong Kong passou a olhar também para esse público de forma estruturada. Thiago apresentou o Family Office HK, iniciativa dedicada a organizar e articular os diferentes elementos que compõem o universo de wealth management e legado: investimentos, impacto, filantropia, educação, sucessão, governança e arte, entre outros.
Entre as medidas recentes, ele destacou ao publico do evento, o lançamento de um novo esquema de residência por investimento comparável a um “Golden Visa” e um programa de concessão de imposto sobre lucro para family offices sediados em Hong Kong, permitindo que transações geridas a partir da cidade se beneficiem de grande eficiência tributária, mesmo com ativos localizados em outros países.
Thiago também chamou atenção para a infraestrutura criada para atender demandas específicas das famílias, como sistemas de armazenamento de obras de arte em padrão internacional no aeroporto, além de uma rede sólida de provedores de serviços especializados em planejamento sucessório, jurídico, fiscal e filantrópico.
E reforçou o papel do evento Wealth for Good, promovido em Hong Kong para reunir famílias globais em torno de discussões sobre legado, responsabilidade e futuro da riqueza, destacando a intenção de construir, junto ao FBFE, uma delegação de family offices brasileiros para as próximas edições.
Por fim, Thiago compartilhou exemplos práticos de internacionalização bem-sucedida, como o caso da Alpargatas com as Havaianas, que trocaram um modelo baseado apenas em distribuidores na Ásia por uma estrutura própria em Hong Kong, ganhando controle sobre posicionamento, preço, marca e expansão regional para cerca de 20 países.
Para ele, esse tipo de movimento sintetiza a mensagem central da palestra: não se trata apenas de mandar um contêiner para a China, mas de assumir, a partir de Hong Kong, uma posição estratégica na Ásia, com maior controle, margens melhores, acesso a capital mais barato e conexão direta com tendências e famílias empresárias da região.
Encerrando sua participação, Thiago reforçou que, embora benefícios tributários e de residência tenham sua relevância, o maior valor de Hong Kong para as famílias brasileiras está na construção de relacionamentos. A cidade, segundo ele, deve ser vista como um hub onde famílias se encontram para fazer negócios, trocar experiências, desenvolver confiança e acessar, em primeira mão, o futuro econômico e tecnológico que se desenha na Ásia.
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