Poucas histórias empresariais estão tão ligadas ao desenvolvimento de Goiás quanto a do Grupo Jaime Câmara. Ao longo de quase nove décadas, a família participou da construção da comunicação no estado, acompanhou transformações políticas, econômicas e culturais e criou iniciativas que ultrapassaram o universo dos negócios.
Agora, depois da venda de 85% do grupo e da saída da família da operação, uma nova etapa começa a ser desenhada. Foi sobre esse percurso — e sobre o que permanece quando uma família deixa o negócio que construiu — que Larissa Roriz Câmara Guimarães falou no Family Office Summit Goiânia 2026.
A história começa com Jaime Câmara, que chegou ainda jovem a Goiás e teve na imprensa seu primeiro ofício. Depois de trabalhar em Vila Boa, atual cidade de Goiás, acompanhou a mudança da capital e se estabeleceu em Goiânia, onde, ao lado dos irmãos Joaquim e Vicente, fundou O Popular em 1938. O jornal se tornaria um dos principais veículos de comunicação do estado e abriria caminho para um grupo que posteriormente reuniria jornais, rádios, televisão e operações também no Tocantins.
Para Larissa, porém, a história do Grupo Jaime Câmara nunca foi apenas empresarial. A família sempre se viu como contadora da história de Goiás e das pessoas que ajudaram a construir o estado. Essa relação permaneceu mesmo após a recente venda de 85% do grupo para a Rede Mato-Grossense de Comunicação, operação na qual a família manteve uma participação minoritária de 15%.
O momento marca uma mudança importante: depois de décadas diretamente envolvida na comunicação, a família passa a discutir como levar adiante sua identidade, seu patrimônio e seus valores fora da operação que definiu boa parte de sua trajetória.
Esse legado também foi construído por Maria Célia Câmara, avó de Larissa, cuja atuação teve forte impacto no cenário artístico de Goiás. Na década de 1970, ela criou a Galeria Casa Grande de Arte, em Goiânia, em uma época em que o mercado local ainda estava em formação.
Mais do que expor obras, Maria Célia buscava artistas, oferecia estrutura para que produzissem e ajudava a apresentar esses talentos ao público. Nomes como Antônio Poteiro, Siron Franco e outros artistas goianos fizeram parte desse ambiente que Larissa descreve como seu próprio “quintal” durante a infância.
A relação da família com a arte acabou ultrapassando o espaço privado. Parte importante do acervo ligado à antiga Galeria Casa Grande foi doada e hoje integra uma galeria no Hospital Estadual Alberto Rassi, em Goiânia. A família também mantém obras adquiridas ao longo de décadas e pretende ampliar o acesso público a esse patrimônio por meio de exposições. Para Larissa, esses trabalhos ajudam a contar a própria história de Goiás, porque acompanham diferentes momentos da produção artística do estado e de artistas que depois conquistaram projeção nacional e internacional.
A atuação social seguiu uma trajetória semelhante. Após a morte de Jaime Câmara, a família estruturou a então Fundação Jaime Câmara, responsável por iniciativas voltadas principalmente à educação, cultura e saúde. Um dos principais projetos foi o Arte e Educação, que oferecia atividades culturais e reforço escolar a crianças da rede pública no contraturno, além de experiências com dança, teatro, música e história de Goiás.
Ao longo dos anos, centenas de milhares de crianças passaram pelas ações sociais apoiadas pela família.
Outro projeto de grande alcance foi o Boa Visão, criado a partir de uma preocupação antiga de Jaime Câmara com pessoas com deficiência visual. A iniciativa realizava exames oftalmológicos em estudantes da rede pública e distribuía óculos para aqueles que precisavam, chegando também às famílias e, posteriormente, a ações relacionadas a cirurgias de catarata. A antiga Fundação encerrou suas atividades, e esse legado social passa agora por uma nova etapa por meio do Instituto Jaime Câmara.
Enquanto parte desse patrimônio cultural e social continua sendo preservada, uma nova frente empresarial ganhou importância dentro da família. A CitàPar nasceu da união de investimentos individuais de alguns de seus integrantes e hoje funciona como uma boutique de inteligência imobiliária. A empresa reúne Larissa, seu pai, seu irmão Cristiano e o sócio externo Dario Jardim, combinando experiências diferentes na análise de oportunidades, estruturação de negócios e desenvolvimento de projetos imobiliários.
A CitàPar não atua como incorporadora tradicional. Seu foco está em estudar a viabilidade dos projetos, avaliar riscos e identificar se determinado empreendimento faz sentido para uma localização e para as condições de mercado. A partir dessa inteligência, a empresa participa de operações em parceria com incorporadoras e investidores, além de atuar em loteamentos, ativos de renda e negócios estruturados.
Essa mudança acontece justamente quando a família entra em uma nova etapa geracional. A terceira geração já convive com integrantes da quarta e até da quinta, enquanto a venda do negócio de comunicação obriga a família a fazer perguntas que antes eram respondidas pela própria existência do grupo.
O que deve continuar unido? Quais negócios fazem sentido para as novas gerações? E, principalmente, quais valores precisam permanecer mesmo quando a atividade empresarial original muda?
A trajetória contada por Larissa mostra que continuidade não significa necessariamente permanecer no mesmo negócio. O Grupo Jaime Câmara nasceu da comunicação, mas ao longo de décadas também construiu uma relação profunda com arte, educação, filantropia, imóveis e desenvolvimento de Goiás.
Hoje, parte dessa história continua nos investimentos imobiliários, parte nas iniciativas sociais e culturais e parte simplesmente na memória coletiva construída por quase 90 anos de jornalismo. Talvez seja justamente essa a nova etapa da família Câmara: o negócio pode mudar de mãos, o legado, a ética e o compromisso social, não.
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