Maurílio Biagi Filho: o legado de uma família que aprendeu a se reinventar
Crescer ao lado de um dos empresários mais importantes da história de Ribeirão Preto e, posteriormente, assumir a responsabilidade de dar continuidade aos seus negócios foi parte da trajetória de Maurílio Biagi Filho. Mais do que suceder o pai, Maurílio precisou conduzir empresas em expansão, enfrentar crises e, décadas depois, preparar seus próprios filhos para uma nova passagem de geração.
Durante o Family Office Summit Ribeirão Preto 2026, o empresário compartilhou experiências de sua trajetória à frente dos negócios da família e refletiu sobre os aprendizados que marcaram diferentes momentos de sua vida. A conversa foi conduzida por Daniela de Rogatis, educadora e fundadora da De Rogatis, que também participa da elaboração de seu livro de memórias e é especialista no desenvolvimento de herdeiros e acionistas.
Filho mais velho de uma família de oito irmãos, Maurílio cresceu na usina, em uma época em que funcionários e familiares viviam em uma mesma comunidade. Sua primeira escola funcionava em uma sala simples, frequentada também pelos filhos dos trabalhadores, sem instalações sanitárias ou água encanada. Foi nessa convivência que começou a desenvolver uma visão sobre as relações humanas que o acompanharia por toda a vida.
“Eu nunca fui pobre, mas eu vivi, essa vivência me fez o que eu me moldasse.”
Ainda jovem, conheceu as diferentes atividades da operação agrícola e industrial. Acompanhava o pai, percorria as lavouras a cavalo e aprendeu a operar equipamentos antes mesmo de assumir responsabilidades administrativas. Embora o pai preferisse que continuasse estudando, Maurílio insistiu em começar a trabalhar. Mais tarde, cursou Administração de Empresas à noite, conciliando a formação acadêmica com a rotina dos negócios.
Quando seu pai faleceu, aos 62 ou 63 anos, Maurílio e seu irmão já participavam ativamente da gestão de um conglomerado que reunia empresas de diferentes setores. Entre elas estavam a Usina Santa Elisa, a Zanini, fabricante de bens de capital, e a operação de bebidas ligada à Coca-Cola. Em diferentes momentos, os negócios familiares alcançaram posições de liderança em seus mercados.
A expansão, entretanto, não aconteceu sem dificuldades. Um dos episódios mais marcantes de sua trajetória envolveu a Zanini, empresa criada originalmente para atender à necessidade das usinas da região de produzir e reparar equipamentos industriais. Com o crescimento do setor sucroenergético e o desenvolvimento do Proálcool, a companhia ampliou sua atuação e passou a participar de grandes projetos industriais no Brasil.
Maurílio relembrou a contribuição de seu pai para as discussões que antecederam a criação do programa nacional de álcool combustível, em 1975. Na ocasião, diante das dúvidas sobre aderir à iniciativa, questionou o pai sobre os benefícios do projeto para o país. A conversa resultou em uma frase que sintetizou sua visão sobre a responsabilidade empresarial: “Se é bom para o Brasil, tem que fazer.”
Anos depois, a Zanini enfrentaria uma grave crise. Ao assumir a condução da empresa, Maurílio Biagi descobriu compromissos relacionados à entrega de dez destilarias, cujos clientes já haviam antecipado parte significativa dos pagamentos. A dimensão do problema ameaçava não apenas a companhia, mas também o patrimônio construído pela família.
Diante da situação, decidiu concentrar os esforços na solução, em vez de procurar culpados. “Eu não olhei no retrovisor. O que eu tenho que fazer?”, relembrou. A recuperação exigiu negociações com bancos, venda de ativos e aportes de recursos provenientes de outros negócios do grupo. Foram seis anos de trabalho até que as obrigações fossem cumpridas.
Ao recordar esse período, Maurílio reconheceu que a decisão colocou em risco empresas financeiramente saudáveis, mas permitiu preservar os compromissos assumidos. A experiência reforçou a importância de tomar decisões em momentos de crise, mesmo quando não existem alternativas simples, e mostrou como os problemas de uma empresa podem comprometer toda uma estrutura patrimonial familiar.
Com o passar dos anos, os negócios da família passaram por reorganizações e separações societárias. Dessa trajetória surgiu a Maubisa, que hoje atua como single family office da família Amorim Biagi, com investimentos em agronegócio, imóveis, private equity e mercado de capitais.
Na conversa com Daniela de Rogatis, Maurílio Biagi também abordou os aprendizados da convivência empresarial com seus irmãos e a maneira como procurou preparar os próprios filhos para uma nova etapa. Pai de Rodrigo, Marcelo, Roberto e Elisa, contou que buscou criar condições para que os quatro participassem das decisões e desenvolvessem uma linguagem comum em relação aos negócios.
O processo exigiu paciência, diálogo e apoio externo. Para ele, nenhuma experiência anterior é capaz de preparar integralmente uma família para a própria sucessão. “Você tem que ter muita paciência e muito aprendizado, porque isso você faz uma vez na vida”, afirmou, ao lembrar que cada família precisa encontrar seu próprio caminho para organizar a passagem de responsabilidades entre gerações.
A reorganização patrimonial e societária foi acelerada após o falecimento de sua esposa, Vera. Hoje, segundo Maurílio Biagi, os filhos já assumiram as principais responsabilidades e conduzem suas atividades dentro da estrutura familiar. Mais do que a organização dos ativos, o empresário destacou a qualidade da relação construída entre eles como um dos resultados mais importantes dessa transição.
“Principalmente a gente estar junto, a gente se dá muito bem, a gente se respeita, a gente trabalha muito bem juntos.”
Outro aspecto que atravessou toda a conversa foi sua preocupação com as pessoas. Maurílio relembrou os programas de educação e assistência social desenvolvidos nas empresas da família e a importância que sempre atribuiu à escuta dos funcionários. Essa atenção às relações também esteve presente em sua atuação empresarial. Ao longo da vida, participou de aproximadamente 50 sociedades e afirmou ter preservado boas relações mesmo após o encerramento das parcerias.
Na etapa atual de sua trajetória, essa preocupação se estende à realidade social de Ribeirão Preto. Apesar da riqueza produzida na região, Maurílio questionou as desigualdades existentes e defendeu maior atenção às comunidades em situação de vulnerabilidade. Para ele, a responsabilidade de quem empreende também passa pela capacidade de compreender as necessidades das pessoas e contribuir para transformar a realidade ao seu redor.
Depois de décadas dedicadas à expansão, à recuperação e à reorganização de negócios, Maurílio passou a atribuir ainda mais importância à convivência familiar e às relações construídas ao longo do caminho. Sua trajetória mostra que preservar um legado não significa apenas manter empresas ou patrimônio, mas também transmitir princípios, preparar os filhos para tomar decisões e cultivar relações capazes de permanecer entre as gerações.
Maurílio atribui seu sucesso ao fato de ter trabalhado, ao longo da vida, com pessoas que considerava melhores do que ele em suas respectivas especialidades.
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