Sócia-fundadora da Kindred House Multigenerational Advisory, neta de Abílio Diniz e integrante da governança da família, Andrea D’Avila levou ao Family Office Summit Belo Horizonte 2026 uma reflexão que une experiência pessoal e atuação profissional: por que patrimônio e estruturas de governança, embora fundamentais, não são suficientes para manter uma família empresária conectada ao longo das gerações?
A construção de um legado familiar capaz de atravessar gerações depende de muito mais do que patrimônio. Em 1973, cerca de 120 descendentes de Cornelius Vanderbilt se reuniram em um salão da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos. Era a primeira vez que muitos deles se encontravam.
Um século antes, Cornelius Vanderbilt havia construído uma das maiores fortunas americanas. Naquela reunião, porém, segundo o relato apresentado por Andrea D’Avila, já não havia um único milionário entre seus descendentes. Em pouco mais de três gerações, a fortuna havia se dissipado e restava uma família formada, em grande parte, por pessoas que compartilhavam um sobrenome, mas pouco da vida em comum.
Foi com essa história que Andrea abriu sua palestra no Family Office Summit Belo Horizonte 2026 e apresentou a pergunta que conduziria toda a sua reflexão: por que algumas famílias conseguem permanecer conectadas ao longo das gerações enquanto outras, mesmo depois de construir grandes patrimônios, gradualmente se dissolvem?
Para Andrea, essa não é apenas uma questão profissional ou acadêmica. Psicoterapeuta, empresária, escritora e palestrante com atuação voltada ao aumento da consciência sobre as relações e a riqueza, Andrea reúne vasta experiência pessoal e profissional sobre o assunto.
Ela levou para a palestra não apenas conceitos, mas experiências vividas em processos de sucessão, conflitos e reorganização familiar. “Eu não venho aqui de fora, eu falo de dentro”, afirmou ao se apresentar à plateia.
E foi justamente dessa combinação entre experiência profissional e história pessoal que surgiu a principal tese de sua palestra: a construção de um legado familiar capaz de atravessar gerações não é sustentada apenas pelo patrimônio, mas pelo sentido que a família consegue construir em torno dele.
A dissolução de uma família empresária nem sempre acontece por meio de uma grande briga, de uma disputa societária ou de uma ruptura pública. Muitas vezes, o processo é muito mais silencioso. Os primos passam a se encontrar menos. Os diferentes ramos seguem suas vidas em cidades distintas, com prioridades, interesses e ambições próprias.
Os encontros familiares se tornam mais formais. O afeto pode continuar existindo, mas o espaço comum começa a diminuir. “O que costuma acontecer é que o ‘nós’ vai perdendo densidade”, explicou Andrea.
Até que, em determinado momento, restam poucos elementos compartilhados além do sobrenome, da história e, eventualmente, de um patrimônio. Para Andrea, essa é uma espécie de erosão silenciosa e justamente por isso dificilmente aparece nas discussões tradicionais sobre patrimônio e sucessão. Não existe uma linha no balanço capaz de medir o desejo de uma família de permanecer junta.
Essa distinção ganhou ainda mais força quando Andrea trouxe para a palestra a história de sua própria família. Ela contou que a estrutura de governança existente hoje nasceu, em grande medida, como resposta a uma profunda cicatriz familiar.
No final da década de 1980, divergências relacionadas à gestão da empresa fundada por seu bisavô acabaram levando a um conflito entre integrantes da família.
Uma parte permaneceu no negócio; outra seguiu um caminho diferente. Mais do que os detalhes da disputa, Andrea chamou atenção para aquilo que, olhando retrospectivamente, faltava naquele momento: um espaço no qual as divergências pudessem ser discutidas antes de se transformarem em ruptura.
“A estrutura que temos hoje é literalmente a resposta a essa ausência. Uma família que passou por um racha sucessório não monta um conselho porque é elegante, ela monta porque não quer passar por isso de novo.”
Décadas depois, porém, essa estrutura seria submetida a outro tipo de teste. Com a passagem de Abílio, a família perdeu uma figura que funcionava como centro de autoridade, vínculo e união. Os protocolos de governança continuavam existindo. As regras estabeleciam como decidir e como organizar as questões patrimoniais.
Mas surgiu uma pergunta para a qual nenhum organograma tinha resposta: queremos permanecer juntos? E, se sim, para quê? Foi nesse processo que Andrea percebeu os limites da governança. “Ela organiza a convivência, mas não produz o desejo de conviver.” É uma distinção importante.
Conselhos, acordos, protocolos e estruturas patrimoniais podem organizar relações e decisões. Mas não conseguem, por si mesmos, explicar por que irmãos, primos e futuras gerações desejariam continuar construindo alguma coisa em conjunto.
Para explicar essa diferença, Andrea contrapôs a trajetória dos Vanderbilt à dos Rockefeller. As duas famílias partiram de fortunas extraordinárias construídas por seus fundadores. Mas, segundo Andrea, a família Rockefeller desenvolveu ao longo das gerações não apenas estruturas para administrar seus ativos, mas uma ideia sobre o papel da própria riqueza. John D. Rockefeller tratava o patrimônio como responsabilidade, e não simplesmente como posse.
Essa visão não era transmitida apenas por discursos. Estava presente em práticas familiares, na educação dos filhos e na participação das novas gerações em decisões sobre a destinação dos recursos.
Décadas depois, alguns de seus descendentes tomaram decisões que, à primeira vista, poderiam parecer uma ruptura com o fundador: afastaram investimentos familiares do setor de petróleo por questões relacionadas ao clima. Andrea propôs outra leitura. “O que John D. transmitiu aos descendentes não foi o petróleo, foi uma ideia sobre o que fazer com a riqueza.” O ativo mudou.
O valor permaneceu. O legado familiar, nessa perspectiva, não estava necessariamente no ativo, mas nos valores capazes de orientar as gerações seguintes. Os descendentes não precisaram repetir exatamente as escolhas do fundador para preservar aquilo que consideravam essencial em seu legado.
“Uma família cujo único elo é o patrimônio se rompe no dia em que as gerações discordam sobre ele. Uma família cujo elo é o sentido compartilhado consegue discordar e ainda assim continuar sendo família.”
A verdadeira continuidade, portanto, não estaria necessariamente na preservação do mesmo negócio ou dos mesmos ativos, mas na capacidade de cada geração reinterpretar valores e dar a eles uma expressão adequada ao seu próprio tempo.
Mas construir um sentido compartilhado não significa exigir que todos permaneçam juntos a qualquer custo. Também não significa que todos os integrantes devam trabalhar na mesma empresa, participar dos mesmos projetos ou fazer escolhas semelhantes.
“O florescimento de cada indivíduo precisa ser potencializado pelo coletivo e não ofuscado por ele”, afirmou Andrea.
Para ela, uma coesão construída a partir da obrigação é frágil. Se pertencer à família significa abrir mão da própria identidade, dos próprios projetos ou da possibilidade de escolher um caminho diferente, essa união dificilmente será sustentável ao longo das gerações.
O desafio de uma família empresária está em encontrar um espaço comum suficientemente forte para conectar seus integrantes e, ao mesmo tempo, suficientemente flexível para permitir que construam trajetórias próprias.
Esse ponto aproxima diretamente a reflexão de Andrea do debate sobre individuação das novas gerações: o “nós” familiar só pode ser sustentável quando existe espaço para o “eu”.
Outro elemento importante na construção desse sentido compartilhado é a maneira como uma família conta sua própria história. Andrea destacou que identidade familiar não se constrói apenas celebrando fundadores, conquistas empresariais ou momentos de sucesso.
As dificuldades, os conflitos, os erros e a forma como gerações anteriores enfrentaram momentos adversos também precisam fazer parte dessa narrativa. “A família que só conta as vitórias transmite muito menos força do que a que conta como caiu e como se levantou.”
A história familiar, nessa perspectiva, deixa de ser apenas uma coleção de feitos e passa a integrar o legado familiar, funcionando como referência para as próximas gerações. Não se trata de idealizar o passado, mas de permitir que filhos, netos e bisnetos compreendam de onde vieram, inclusive conhecendo as dificuldades que fizeram parte dessa trajetória. “Identidade e autoestima […] não se constroem dizendo que somos ótimos. Constroem-se contando a verdade da travessia.”
Como transformar, então, um conceito aparentemente abstrato como “sentido compartilhado” em algo concreto? Andrea propôs três pilares.
O primeiro é identidade: quem somos como família e o que escolhemos levar adiante? Essa investigação passa pela história familiar, mas também pela relação que seus integrantes estabelecem com dinheiro, patrimônio, segurança, mérito e pertencimento.
Andrea chamou atenção para o fato de que abundância financeira não elimina necessariamente uma mentalidade de escassez. Crenças e comportamentos relacionados ao dinheiro podem atravessar gerações e influenciar decisões patrimoniais sem que a família perceba.
“Quando identidade e dinheiro estão soldados, cada decisão sobre patrimônio vira uma decisão sobre quem eu sou e que lugar eu ocupo dentro desse sistema.”
O segundo pilar é o mundo. Depois de compreender quem é, a família pode se perguntar: quais questões nos mobilizam? Onde queremos estar presentes? O que existe fora de nós que realmente nos convoca? Uma família não precisa abraçar todas as causas.
Precisa identificar aquilo que, a partir de sua própria identidade, considera relevante. É desse encontro entre identidade e mundo que pode surgir um propósito.
O terceiro pilar é a ação. Porque valores e propósitos só ganham consistência quando deixam o discurso e se transformam em algo que a família efetivamente faz em conjunto.
Pode ser uma causa, um instituto, um negócio, a formação das próximas gerações, um território ou qualquer outro projeto coerente com aquilo que a família decidiu sustentar. Identidade, mundo e ação: quem somos, o que nos convoca e o que queremos construir juntos.
Na parte final da palestra, Andrea introduziu outra distinção fundamental: a diferença entre herança e autoria. “Herdar é receber uma história que começou antes de nós. Autoria é atualizar o sentido dessa história e dar a ela um destino.”
A frase ajuda a deslocar a sucessão de uma lógica puramente patrimonial. Cada geração recebe um legado familiar que inclui ativos, empresas, histórias, valores, relações e responsabilidades construídos antes de sua chegada.
“Um sentido só atravessa gerações se continuar fazendo sentido para quem chega, não só para quem transmitiu.” É por isso que preservar um legado familiar não significa necessariamente repetir as escolhas das gerações anteriores.
Uma nova geração pode mudar o negócio, rever prioridades, ocupar outro lugar na estrutura ou escolher novas formas de expressar valores herdados e ainda assim preservar uma identidade familiar.
A engenharia sucessória continua sendo indispensável para organizar a transmissão dos bens, das participações e do patrimônio.
Mas existe uma dimensão que documentos e estruturas, sozinhos, não conseguem transmitir: o motivo pelo qual aquela família deseja continuar construindo algo em conjunto. Andrea encerrou a palestra não com uma resposta, mas com uma pergunta: “A sua família quer permanecer junta? E, se sim, para quê? Qual é o sentido dessa união?”
Talvez seja justamente essa conversa anterior ao patrimônio, aos organogramas e aos protocolos que permita a uma família transformar herança em continuidade e manter vivo seu legado familiar. Honrar quem veio antes, atualizar o sentido no presente e deixar espaço para quem vem depois.
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