José Henrique Salvador, CEO da Rede Mater Dei, compartilhou com franqueza e profundidade a jornada da empresa ao longo das últimas décadas, destacando o processo de transição entre a segunda e a terceira geração, bem como os movimentos estratégicos que estão moldando o futuro do grupo hospitalar. A apresentação ocorreu durante o Family Business Innovation 2025, realizado em Belo Horizonte.
Ao iniciar sua fala, fez questão de agradecer o convite e reconhecer o valor único de reunir famílias empresárias que, com histórias diversas, se fortalecem mutuamente ao trocar aprendizados e experiências, especialmente nos momentos de tomada de decisão que definem o rumo de seus negócios.
José Henrique reforçou que o propósito da Rede Mater Dei é, e sempre foi, “servir”. Para ele, o propósito é a mola propulsora da cultura organizacional e precisa ser vivido diariamente. A imagem da carta apresentada por seu pai durante o evento simboliza essa essência: lembrar todos os mais de 10 mil colaboradores por que fazem o que fazem, colocar o paciente no centro de tudo.
É a partir desse compromisso que surgem os quatro pilares que sustentam a atuação do Mater Dei: qualidade e segurança assistencial, eficiência operacional, experiência do paciente e a prática da visão horizontal multiprofissional, em que médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde atuam como equipe integrada, rompendo a lógica hierárquica que predominou por muito tempo nos hospitais.
Ao abordar os valores da rede: calor humano, pessoas que fazem a diferença, segurança, pioneirismo com inovação e geração de resultados, José Henrique destacou que, por ser um negócio essencialmente de serviço, feito por gente, todo investimento em capacitação e desenvolvimento de líderes é estratégico. Para a atual geração, o grande desafio é garantir o crescimento com responsabilidade, preservando o legado enquanto empreendem dentro da própria empresa.
Essa cultura do intraempreendedorismo tem impulsionado movimentos importantes, como a inauguração do Mater Dei Nova Lima, em 2024, e o próximo grande passo: a entrada da rede no mercado paulista. O primeiro hospital Mater Dei em São Paulo será fruto de uma joint venture com a Atlântica Hospitais, veículo do Bradesco. Esse modelo reduz riscos, amplia o conhecimento local e cria um novo caminho para expansão sustentável, algo fundamental em um setor extremamente competitivo. A previsão é que o hospital seja inaugurado em 2028, abrindo portas para novos projetos em um mercado que ainda possui vasto potencial de consolidação.
José Henrique também contextualizou a evolução do setor de saúde no Brasil desde 1980, quando a Mater Dei foi fundada, um período em que o atendimento era fragmentado, baseado no INAMPS e sem um sistema suplementar organizado. Com a criação do SUS em 1988, da ANS em 2000 e a abertura ao capital estrangeiro em 2015, o mercado transformou-se profundamente. Hoje, observa-se a formação de grandes conglomerados, como a Redditor, Hapvida e Dasa, e a atuação de redes independentes que buscam posicionamento estratégico nesse ambiente de consolidação acelerada.
Olhando para os próximos 25 anos, o CEO destacou para o público do FBFE Belo Horizonte, uma mudança significativa no modo como as pessoas se relacionam com sua saúde, um movimento de maior consciência e busca por prevenção, intensificado após a pandemia. A Rede Mater Dei quer estar preparada para esse futuro, atuando não apenas no tratamento de doenças, mas na promoção ativa da saúde e bem-estar, construindo um ecossistema completo para o paciente.
Para sustentar esse horizonte, a empresa estruturou um planejamento estratégico baseado no modelo BSC, com acompanhamento rigoroso das ações táticas e foco no longo prazo. Mas, além das metas e iniciativas, José Henrique dedicou parte de sua fala às reflexões sobre empresas familiares, heranças valiosas transmitidas pela primeira e segunda gerações.
Segundo ele, formar sucessores exige tempo, experiências profissionais fora da empresa e, sobretudo, autoestima. O jovem precisa saber fazer, errar, conquistar legitimidade e entender que seu papel não é assegurado pelo sobrenome, mas pela competência. Da mesma forma, é essencial que a empresa familiar acolha executivos de mercado altamente qualificados, responsáveis por oxigenar a cultura e elevar o padrão de excelência, evitando que a organização permaneça enclausurada no “groupthink” familiar.
Um ponto central da cultura da família Salvador é a convicção de que empresas familiares bem-sucedidas têm por trás famílias bem estruturadas, com relações saudáveis. Por isso, o conselho de família e o cuidado com os vínculos são tão valorizados. Outro aspecto crucial é planejar a aposentadoria dos líderes das gerações anteriores, garantindo transições suaves e respeitosas.
José Henrique também lembrou que uma empresa familiar não é um patrimônio herdado dos pais, mas um legado emprestado dos filhos, uma visão que reforça o compromisso com a perenidade. A sucessão, enfatizou, não é um evento, mas um processo que deve começar cedo. Isso evita frustrações comuns, como esperar que um jovem adulto não preparado assuma responsabilidades para as quais nunca foi treinado.
Para concluir, resgatou uma reflexão marcante trazida por seu pai: “Debaixo dos pés de cada geração estão as cinzas das que vieram antes.” Na Rede Mater Dei, respeitar o passado é pré-requisito para construir o futuro. É com esse espírito, honrando a história, servindo as pessoas e planejando com visão que a família Salvador trabalha diariamente para garantir a continuidade e a vitalidade da instituição pelos próximos muitos anos.
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